terça-feira, 22 de setembro de 2009

hoje o samba saiu procurando você...



Filme: Benjamim
Música: Quem te viu, quem te vê – Chico Buarque


Não posso aceitar que tenhas me esquecido. Ou que tenhas te convencido de que é melhor assim. Não posso aceitar o fato de teres aceitado minha partida, de não teres lutado mais, de não teres dito outras coisas. Não consigo aceitar que consentistes o meu desprezo e que alivia-te a minha indiferença. Não, não consigo. Nem entendo como podes ter pedido para que eu voltasse e depois sem esforço algum deixaste-me parada imóvel na mesma esquina em marcamos o encontro. Ou não marcamos? Simplesmente sabíamos que ali nos encontraríamos de novo, e tu, temendo o encontro não apareceste. Não posso aceitar que depois de acordos feitos, orgulhos deixados de lado, tu só não resolveste ir até lá, despertando novamente toda a ira e a dor que eu já havia guardado. E agora nada dizes? Não posso aceitar teu silêncio, a falta de desculpas, deve-me desculpas. Não sei aceitar que dessa vez acabou mesmo, e que não haverá mais insistência, pedidos de voltas, paciência. Diferente de como sempre imaginei ser o fim, foi tu mesmo que botou um ponto final nesta história, um ponto final e definitivo. E eu não posso aceitar...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

(surpreendentemente)



Filme: À bout de souffle
Música: Not a Second Time - The Beatles

O que resta depois do adeus? Não posso afirmar-te que sinto-me aliviada, seria um equívoco, porém ao dizer-te “vá embora e não me procures mais” senti dentro de mim um descarrego. Não sei se pelas infindáveis noites de pranto ou se pelas tantas horas que esperei aquele telefone tocar, mas era um descarrego e no segundo seguinte depois de ter-lhe dito isso, surpreendi-me com minha coragem. Quando tu pediste um último abraço o consenti quase implorando para que não fosses, porém, ao ver-te dando-me as costas, soltei um sorriso vago para a rua, ali mesmo sentada ao meio-fio do primeiro dia setembro que fazia calor (surpreendentemente) em nossa cidade. E o que restou depois? A sensação de poder encontrar-te em qualquer esquina, e depois até mesmo no bar. No entanto, eu não o encontrei, e já faz vinte-e-quatro-horas que saístes de minha e vida e (surpreendentemente) começo a sentir-me bem.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sem surpresas



Filme: Nelly
Música: No Surprises - Radiohead



Toda vez que pedi para que fosse embora, na verdade eu pedia para que permanecesses, e ao invés de pedir para que eu parasse de chorar, eu gostaria que tivesses me abraçado. Toda vez que lhe disse que não o ouviria mais, na verdade eu pedia para que tentasses me explicar o que estava acontecendo e falasse cada vez mais não deixando esquecer a tua voz. Toda vez lhe olhei com os olhos cheios de dor, e uma dor tão forte que me sufocava as palavras, na verdade eu gostaria de ter te olhado com ternura e ter-lhe dito que tudo terminaria bem, e ao invés de tu me pedires para parar de te olhar assim, deverias ter me beijado a força ali mesmo na rua não permitindo que eu blasfemasse mais uma vez tudo que havíamos vivido. Toda vez que permaneci em silêncio, esperava que tu o rompesses dizendo baixinho ao meu ouvido que havia errado, mas que dali em diante as coisas se encaminhariam. Toda vez que tu me pediste desculpas, na verdade eu gostaria que tivesses me tirado da rua e tivesses me levado para tua casa, onde depois de alguns minutos mais de lágrimas minhas, tu me farias sorrir. E agora que o tempo passou e nenhuma das atitudes foi tomada ao contrário, agora que disse-lhe com todas as letras vou-me-embora, nem agora fizeste o que eu esperava, não disseste fique-por-favor, e nem vamos recomeçar, simplesmente consentiste, assim meio calado e olhando para o chão, incapaz de mais uma vez surpreender-me.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

inverno



Filme: Les Temps Qui Changent
Música: Oh! Darling – The Beatles


Já cansada esperava que agora tu de fato virias para aliviar-me o peso da solidão e depois o peso que levava comigo pelos erros que cometi. Erros que o feriram, e feriram até mais do que eu poderia imaginar. Porém – não sei se por prazer ou se por maldade – voltastes e maltratas-me como quem ignora a importância desse ser. E eu permaneço calada tentando descobrir onde queres chegar, pois se num dia dizes-me que não queres me ver, no outro telefonas-me para um novo encontro, ali no bar da esquina. E assim corre as semanas e os meses, e agora finalmente quando pensei que estaríamos em paz, sem alfinetadas e comentários hostis e amargos, agora que propus-me a viajar contigo, a levares-me onde querias, agora que deixo que violes meu corpo e o desfrute como sua casa, e rompa-me a roupa sem pudores ou vergonhas, agora que domina-me noite, após noite numa fome insaciável e cedo-me aos teus caprichos. Logo agora, tu maltratas-me e partes sem previsão alguma de voltar. E pensar que necessitava eu lhe pedir perdão, um perdão calado pelo mal que lhe fiz no passado, um perdão que tu não estás disposto a me dar, e agora que sinto tua falta e lhe espero todas as noites, tu resolveste me maltratar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

a dor que dói mais...



Filme: Indochine
Música: Tristeza de un doble A – Ástor Piazzolla



Sinto a falta dele como quem perde um membro. É assustador. E quando a noite chega, vêm com ela inúmeras fraquezas, e muitas vezes eu choro. Na verdade, choro desesperadamente todas as noites, por vezes ao imaginar seus dedos me desenhando os lábios, depois sua mão me afagando os cabelos (que antes eram longos) e por fim sua boca tocando a minha, leve, doce e terna. Outras vezes choro imaginando quanto tempo desperdicei discutindo com ele, quantas brigas, quantas cenas de ciúmes desnecessárias, quanto rancor. No entanto, a maioria das vezes eu choro só porque sinto sua falta. E é uma falta absurda, que preenche cada poro de minha pele. Que sufoca cada sorriso, que me toma cada palavra. É uma falta pungente, que me crava no peito infinitos punhais. É uma falta completa, que me sufoca, e ocupa cada espaço de minha casa, de meu quarto, de minha cama. Sinto falta dele mesmo quando estou acompanhada, e confesso ser essa a falta mais cruel. Vivo buscando uma satisfação que nunca chega, e ao findar a noite eu ridicularizo minha companhia. Sinto falta dele como quem perde um membro. E em algumas manhãs até levanto como se me faltasse uma perna, perco-me em casa, e não consigo chegar à cozinha, então me atiro ao assoalho do corredor mesmo, e ali banho a passadeira vermelha com lágrimas silenciosas. É uma falta que quase me deixa surda, e mesmo que o telefone toque sem parar eu finjo não escutá-lo. E permaneço imóvel, tentando recuperar as forças e levantar do chão, e então imagino que se eu conseguir chegar a cozinha o encontrarei, e só por isso levanto. Porém, chegada à cozinha a única coisa que enxergo é a falta de um membro. E agora é um dos meus braços que perdeu a mão, e a xícara cai se desfazendo em inúmeros pedaços pelo chão, e encostada no balcão deixo rolar pela face mais algumas lágrimas sentidas. Sinto a falta dele como quem perde um membro. É assustador. E nem imagino como possa rever-me por completo novamente, e só por isso continuo vagando pela casa, como uma inválida, esperando que ele talvez volte e devolva-me ao menos os modos de andar.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

sobre aquelas horas...



Série: Private Practice


Aquelas horas que precedem o dia seguinte, nada mais são que horas de vazio, quando se olha para o lado e o corpo que divide a cama contigo é praticamente um corpo estranho, não fosse pelas horas de desejo não reprimido. E são nessas horas de vazio que buscamos compreender com que palavras se descrevem algo assim, ou como se despede depois que o sol nasce. São nessas horas que ficamos a imaginar como seria estar sozinha nesta madrugada, ou então como seria ter uma pessoa ao seu lado que realmente se importa com você. Não importa se a bebida da noite anterior foi em demasiado, o que é importa é o medo da solidão que faz com que olhemos fundo num par de olhos bonitos e o convidemos para passar a noite em nossa cama, isso porque o medo de chegar a casa e encontrá-la vazia é tanto, que se evita pensar na moral, ou então no orgulho, e só imagina os braços que irão lhe acolher minutos antes de dormir. E de quem são esses braços? Não importa. Estou falando das horas em que permanecemos acordadas, enquanto ao seu lado dorme alguém pela qual não se sente comoção alguma. Você até tenta admirar a beleza, o que não é difícil, mas e o resto? Falo das horas de um silêncio absoluto, não falo de arrependimentos, falo de momentos em que nos sentimos tão pequenas a ponto de darmos as mãos para essa pessoa que divide uma cama contigo, só para sentirmo-nos protegidas. Em pensar que a única coisa que desejamos no fundo é apenas isso, a segurança. Algo que não é fácil de encontrar, e na busca, vamos constituindo nossa vida sentimental com essa porção de retalhos, pedacinhos tortos que juntos formam a grande colcha que cobre a nossa cama.

terça-feira, 7 de julho de 2009

o que eu sei



Filme: Evening
Música: April Storm – Jeremy Enigk



Não sei se sentiu saudades das conversas prolongadas. Não sei se chamou por meu nome baixinho numa madrugada, ou se acreditou ter me visto do outro lado da rua. Também não sei se desejou me telefonar, se contou para seus amigos a nossa história. Não sei se escreveu algo destinado a mim, ou se ouviu alguma música e recordou de nós. Não sei se te lembras da minha voz rouca, ou da minha manha deitada na cama te pedindo um copo de água. Não sei quantas vezes recordou meu perfume, o tom do esmalte vermelho que eu usava nas unhas, a marca do xampu, ou o creme hidrante que eu passava depois do banho. Não sei se alguma vez lembrou-se do filme que estava em cartaz naquele dia no cinema, ou se chovia, ou se fazia sol. Não sei se recordas se o meu café era com açúcar, ou sem. Não sei se desperdiçou mais horas ouvindo música pensando em tudo que se passou, ou se teve a capacidade de seguir em frente como quem não se machuca. Não sei se por algum momento tenha se arrependido por ter me deixado plantada na mesma esquina aos prantos, ou se sentiu-se aliviado. Não sei se encarou nossas particularidades como quem encara o trivial, ou se toda vez que escolheu um merlot, por exemplo, lembrou-se de mim. Quantas vezes tu voltaste aos lugares que passamos juntos? Ou tu fizeste como eu, os evitou para não sofrer com as dolorosas recordações. Não sei se já se imaginou ao meu lado novamente, ou se agora está bem com outro alguém. Só sei que alguns sinais não se apagam, e algumas lembranças não se esquecem. Sei que a saudade e a falta talvez tenham sido inevitáveis no começo e mesmo que lutando contra, em algum momento deves ter pensado em mim, e isso meu caro, tu não podes negar.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

volta



Filme: Sommersby
Música: I Will Always – The Cranberries


Agora que voltastes de fato - ou aceitaste-me de volta? - não sei como portar-me. E estranhamente dividimos uma intimidade que quase não nos cabe mais, e tu insistes em ainda fazer as mesmas velhas piadas. E até ensaiamos uma dança em torno da sedução, mas por teres voltado – ou me aceitado novamente – fica explícito que tentamos retomar do ponto em que paramos. Tu porque alimentaste um desejo incontrolável por mim, eu porque sinto falta de sentir-me segura, e assim os dois se propõem a um novo enlace. Eu porque sonhei contigo por algumas noites, tu porque sentias falta dos meus olhos. Eu porque entretive-me em imaginar como seria estar contigo novamente, tu porque esperou-me por muito tempo. E agora que voltastes, ou aceitaste-me novamente, perco-me em atitudes tolas, e até pergunto-me se sou capaz de agradá-lo de novo, ou se cada ato meu o desaponta mais. Não sei bem como portar-me. Se insisto nas antigas máscaras, e ergo algumas barreiras como dantes. Ou se me desarmo e permito que enxergues tantas fraquezas. Reatamos por motivos diversos. Tu por achares-me forte, eu por te achar corajoso. Tu porque insistiu muito. Eu porque deixei que ganhastes. Tu porque já gostastes, eu porque sonho em gostar.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

desalento



Filme: Atonement
Música: Desalento – Chico Buarque

Amo-te com a mesma devoção desde o dia em que o conheci. E mesmo que naquela época eu não tenha lhe dito, digo agora, amo-te como se nunca houvesses me deixado. Amo-te como se ainda pudéssemos nos ver todos os dias, e como se ainda pudesses ajudar-me a ser uma pessoa melhor. Amo-te pelos inúmeros livros que li e pelos incontáveis filmes que assisti. Amo-te pelas viagens que fiz e pelas que ainda vou fazer. Amo-te pelo meu corte de cabelo, pelas unhas compridas e pelo meu tom de voz. Amo-te pelas músicas que ouço no carro todos os dias enquanto vou para trabalho, pelas bebidas noites adentro e pelas gargalhadas altas. Amo-te pelo salto que deixei de usar, pela falta de vergonha em meus gestos. Continuo o amando, como se ainda pudesses me ligar ou até mesmo escrever-me. Amo-te por dizer isso em silêncio, velado. Amo-te por não pronunciar seu nome, mas mesmo assim meu ser estar repleto de ti. Amo-te pela literatura, e pelas linhas que lhe dedico há tanto tempo. Amo-te por não saberes que o amo. Amo-te por seres meu segredo, amo-te por invadir-me os pensamentos todas as noites acalmando meu peito, me fazendo dormir. Amo-te pelo que fizeste de mim e pelo que não houve tempo de fazer. Amo-te só por teres me cumprimentado num dia e no outro teres me devolvido a vida. Amo-te puro e simplesmente, amo-te.

domingo, 14 de junho de 2009

e só...



Filme: Once
Música: Falling Slowly Glen Hansard & Marketa Irglova

Sabes que estou sozinha e insiste numa ligação que soa quase como um golpe baixo. Convidas-me para mais uma conversa daquelas, e prometes fazer-me rir. Sabes que estou ao seu lado e só, e que estarei sempre que quiseres, e mais que uma amiga eu permito que beije-me ao final da noite. E não poderia ser diferente. Sabes que se perguntares eu direi que sim, e lhe indicarei caminhos e o ouvirei pacientemente, mesmo que diga que seu trabalho vem acima de tudo, e até podemos supor que faríamos desse mundo um mundo melhor, mas ao tocar-te a pele macia esqueço-me dos motivos pelo qual fui te encontrar e só consigo pensar no quanto gostaria de estar ao seu lado, mas não ao seu lado e só, mas sim e sempre. Sabes que estou só e perdida, e tu a dizer-me o quanto damo-nos bem, porque somos amigos e só, e desde o dia em que dei-me conta disso, luto contra o desejo de ter-te, e se beija-me a boca ao final da noite, resta-me (novamente) abafar e calar esse desejo, pois sabes mesmo que se perguntares eu digo sim, e estarei ao seu lado e .

segunda-feira, 8 de junho de 2009

souvenirs



Filme: Bleu
Música: Rue de Mes Souvenirs – Orquestra Imperial


E mesmo quando saio à caça de tuas coisas pela casa perco-me na tua falta. Vasculho todos os cantos, um par de meias esquecidas, dois retratos no escritório, uma gravata no armário e tua falta preenchendo todo o ambiente. Encho mais duas caixas com o que consegui encontrar, e não sei bem onde deixá-las – se no sótão caso volte, ou na rua para que alguém as leve – me incomodam ao ocupar tanto espaço na sala, mas na verdade é tua falta que me sufoca. Uma corrente na gaveta, uma camisa dentro da máquina, alguns livros ainda estão na estante e teus discos espalhados sobre o suporte para o som, a coleção de selos da tua infância, todos colados num velho álbum amarelo me ocupava espaço no armário. Mais outra caixa com fragmentos teus que fizestes questão de largar por aqui. E tua falta a roubar-me quase todo o ar. E continuo a vasculhar a casa, revirá-la dos pés à cabeça, para me certificar de que partistes mesmo e não estas a me fazer uma graça escondendo-se embaixo da cama. Dou-me conta de que tudo que era seu está devidamente trancado, selado e escondido, que é para não voltares assim numa lembrança ou outra quando ando pela casa. E exausta ao sentar-me na cozinha vejo a caixa de chá que lhe preparava para dormir, e mesmo cega e sufocada pela tua ausência ouço baixinho a canção que julguei um dia ser nossa...

domingo, 24 de maio de 2009

não confessado



Filme: The Painted Veil
Música: Pois é – Los Hermanos

O que te escrevo fica por aqui, espalhado sobre a mesa, outras vezes guardado nas gavetas. Algumas vezes me saem pela metade, frases interrompidas, palavras dispersas. Às vezes é só teu nome, depois teu nome e sobrenome. Escrevo sobre sentimentos difíceis de lidar, duram páginas estes relatos onde minha vida sai explicada minuciosamente, gosto de lhe apresentar cada fato, alguns erros e falo sobre arrependimentos. Têm vezes que escrevo coisas boas, conto sobre os planos e os lugares que visitaríamos, lhe faço propostas indecentes. E o que escrevo vai ficando por aqui. O que não escrevo não sai da minha cabeça, penso nas palavras certas para dizer coisas que não precisam ser ditas, desisto de escrever e lhe telefono, mas antes mesmo de discar todos os números eu desisto. Algumas coisas não devem ser ditas. O que escrevo de bonito lamento não te enviar, o que escrevo de doloroso não envio porque seriam segredos. E as cartas? Longas cartas que estão presas em envelopes brancos ou amarelos claros, destinatário: ...
Cartas que me ocupam espaço demais sobre a mesa e gavetas, tantas coisas foram ditas ali que tu nem podes imaginar, sem falar nas lembranças, tão bem descritas quase possíveis de serem vividas novamente. O que te escrevo me invade os poros e a alma, mergulho em infinitas linhas com teu nome repetido sucessivas vezes, muitas lágrimas derramadas e folhas amassadas pelo chão do quarto. O que escrevo fica por aqui, cobrindo-me e não deixando até seguir em frente, era tanto o que eu queria lhe dizer que me impediu até de tentar... e vão ficando por aqui, sobre a mesa, gavetas e chão, calando-me mais e mais...

quinta-feira, 7 de maio de 2009



Série: Grey’s Anatomy
Música: Violet Hill – Coldplay

Para lhe trazer a paz novamente e acabar com minha solidão eu queria apenas que desses-me uma chance.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

"não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer..."



Filme: A Máquina
Música: O Vento – Los Hermanos


Estou sempre arranjando maneira para chamar tua atenção. Quando não são as infundadas queixas de dor de cabeça e mal-estar, lhe jogo na cara um problema de saúde muito sério. Ou então despenco a discursar minha opinião política e toda minha indignação contra a sociedade para que repares que falo algo. Às vezes entro em divagações longas acerca da filosofia-histórica-fascinante para que notes meu tom de voz, as expressões das minhas mãos ou até mesmo meus olhares pidões na tua direção. Sempre arranjo maneira para chamar tua atenção. Embriago-me exageradamente e deixo-me perder a cabeça, para que tu vejas minha falta de vergonha na cara e te suplique mais uma vez que vá para a cama comigo. Outras horas recomponho minha postura, e vivo na minha sobriedade uma moral digna de uma moça de respeito para que me leves a sério. No entanto, há horas que não falo. E nestes momentos é quando mais quero sua atenção, quando permaneço em silêncio. É nessas horas que espero que surpreenda-me com alguma confissão, ou então só dedique a mim a atenção que imploro silenciosamente. Julgo que ao não te falares nada descobre mais de mim do quem em horas de conversas, pois dividi-lo com tantas outras mulheres, não me encaixar na tua vida nem sempre é o maior dos meus problemas. Porém deixar de ter tua atenção seria demais para este coração, que na verdade de ti pede muito pouco, e o que recebe talvez já seja positivamente um exagero.

terça-feira, 14 de abril de 2009

assim que é



Filme: The Nightmare Before Christmas
Música: I Loved Dancing With You – Alfonso de Vilallonga


Toda vez que adapto-me a solidão tu vens e rouba-me ela. Tira-me daquele estado confortante, dos silêncios longos, das esperas intermináveis. Rouba-me os pensamentos, rouba-me as leituras, rouba-me a condição na qual estou habituada a viver. Tira-me a paz, o sossego e a calma. Enche os dias de risadas, conversas e música. Deixas embriagar-me ao teu lado, ao contrário de fazer isso sozinha. Permite-me preparar o jantar para dois e divide uma cama comigo. Ocupa cada minuto dos meus dias, às vezes só por estar presente, outras vezes porque força-me tua presença. Há horas que te odeio, no entanto segundos depois perco-me nos teus braços. E quando deixa-me por horas apenas, estranho a solidão, aquela que foi minha companheira. Desespero-me e sinto dores profundas no peito, quase choro e só sinto-me aliviada ao ver-te novamente. É assim que é. E finalmente quando partes definitivamente mal me reconheço frente ao espelho, sugas de mim minha personalidade, o brilho dos olhos e os sorrisos, deposita em minha mente longos pensamentos, silêncios e esperas intermináveis. Devolve-me as horas de leitura, o conforto falso da condição que acredito estar habituada a viver. Entrega minha suposta paz, meu sossego enganoso e minha calma forçada. E de repente vejo-me estranha a solidão, não reconheço meus hábitos e meus modos, até que aos poucos invade-me o silêncio e o vazio, e vou aquietando meu coração, permanecendo inerte aos sentimentos, evitando lembrar de ti. Vou adaptando-me a solidão e então tu vens e rouba-me ela novamente, condenando-me a permanecer nesse ciclo doloroso.

terça-feira, 31 de março de 2009

e muito mais



Filme: Wild at Heart
Música: Love me Tender – Elvis Presley


Embaraça-me ainda se fazes um elogio – cá entre nós, nunca soube lidar com eles direito – contudo teus elogios talvez me embaracem mais. Não sei se são teus olhos dissimulados que me rompem a vergonha, a maneira como me despes com as palavras, ou como me comove ao falares em saudade. Se são teus modos, os cílios longos ou a pele morena. Podia ser a tua língua na minha pele, tua mão na minha, o som da respiração ofegante, ou teu jeito manso de falar que me fascina, não sei. E quando tuas mãos passeiam descaradamente pelo meu corpo desperta as sensações mais remotas de meu peito, e não falo só em desejo, falo de sensações as mais diversas, quase chego a paralisar-me. Desce em ondas rápidas para todo o corpo arrepios, e vontade de cantar e chorar, pois são tuas mãos que passeiam pelo meu corpo. E se fazes-me rir é verdadeiro. Nada daquelas risadas forçadas. Ainda consegues fazer meu coração pulsar de ansiedade, ah a ansiedade, que precipita meu nervosismo antes mesmo de te encontrar. E só de imaginar te encontrar minha mente viaja quilômetros onde lhe abraço de maneira terna e segura, para que não partas mais. Faze-me tudo isso e muito mais, e quantificar o bem que sinto seria inútil, só tu olhando meus olhos e sendo capaz de compreendê-los para decifrar apenas um bocadinho do que sinto...

quarta-feira, 25 de março de 2009

agora



Filme: The Sheltering Sky
Música: Do sétimo andar – Los Hermanos


Tenho-te agora em frangalhos. Bem despido e já massacrado dentro do peito. Tenho-te maldito e odiado às vezes, como se eu tivesse o direito de supor sentimentos contrários aos teus em meus pensamentos. É assim que o tenho. Transformado agora em lágrimas, muitas lágrimas noites adentro, lágrimas que nem sei explicar. Tenho-te amarrotado entre minhas mãos, exprimido com tanta força e já deformado. Menti ao dizer que não te esqueceria, na verdade seu rosto já não me é familiar. E talvez por isso eu o estranhe não te reconhecendo em meus sonhos e deixando de ouvir tua voz. Pois tenho-te agora em frangalhos – ou seriam migalhas? – partido, quebrado dentro de mim. Consome-me em dores constantes de cabeça, em mal-estares que nunca passam. São muitos silêncios sem serem suplantados, e a falta de palavras faz de nós novamente estranhos, inertes de nós mesmos. E aos poucos, o que julguei ser real e verdadeiro vai sendo enterrado entre medos e suposições. Pois se o tenho aqui em pedaços dentro de mim, como hei de fazê-lo tornar-se inteiro, se tu amado, mantendes-te calado frente aos meus demônios?


“Por não sabermos quando vamos morrer,
vemos a vida como uma fonte inesgotável.
E no entanto tudo acontece apenas um certo número de vezes,
um número muito reduzido, aliás...”

terça-feira, 17 de março de 2009

em branco



Filme: Doctor Zhivago

Esforço-me em ainda estraçalhar estas lembranças dentro do peito. Recorro a tua imagem como quem necessita reafirmar uma fé em algo que nem existe mais. Ofereço essa estranha devoção ao que vivemos, ao que fomos e ao que deixamos de fazer. Forço ainda um pranto sentido numa hora de desespero, e tento imaginar o que me dirias se caso me visse chorar – concluo que não dirias nada – deixo seu nome ainda sair de minha boca, meio vago, num sussurro. E quando ouso pensar num outro homem, dou jeito de lhe fazer comparações, comparações essas infundadas, pois quanto mais o tempo passa, mais tenho certeza de que nunca o conheci. Por hora só o som da tua risada me vem clara a mente, e consigo vislumbrar tua boca pequena naquele sorriso feio. A verdade é que aos poucos vou esquecendo-me de como vestia-se, que cor tinham bem teus cabelos. Esqueci que cigarro fumavas, e teu perfume talvez tenha se perdido também em minha memória. Vez ou outra, num grande esforço enxergo bem teus olhos, pequeninos, contraídos numa expressão de quem tentava me adivinhar os pensamentos. Depois imagino como seria o tom da tua pele, era mais clara que a minha, disso lembro bem, só não sei direito que tom tinha. Tua voz é algo que não consigo recordar, por mais que eu queira, mas nem ao telefone lembro-me de como era. A música permanece, ainda guardo o disco que me deste. Os livros também, esses eu não esqueceria jamais. Os lugares que visitamos ainda estão lá, mas não recordo o que fizemos ali. Aos poucos foi se dissipando de minha memória tua imagem, as conversas, os segredos. Foi se perdendo num abismo de misto de saudade e dependência, e ainda que me esforce para manter-te intacto em meus pensamentos, é impossível, és como a polaroid que com o passar dos anos vai perdendo sua qualidade de imagem, e no fim resta apenas um papel em branco.

quarta-feira, 4 de março de 2009

lirismo



Filme: Anna Karenina
Música: Boa noite, amor - Francisco Mattoso – (Interpretação de Elis Regina)


Gosto de viver esse lirismo. Sonhar contigo acordada, imaginar-te próximo, fazendo de mim a mulher mais feliz que já existiu. Gosto dos planos que faço sozinha, planos secretos, projetos para um futuro que talvez nunca chegue. Gosto de imaginar que sentes minha falta, que pensas em mim, que sente saudades, mesmo que não seja verdade. Gosto de viver esse lirismo, um estranho romantismo que não me assolava mais, mas que agora preenche os meus dias e permite-me rir mais, falar mais, viver melhor, mesmo que sendo por uma ilusão. Gosto de supor que um dia virás, que me fará uma surpresa, ou que simplesmente me ligará no meio da noite. Gosto de falar sobre ti, contar o que fazes, elogiar o modo como me tratas, gosto de causar essa pequena inveja em outras mulheres, mesmo que sendo em meus sonhos, finjo que é real. Gosto de viver esse lirismo que me embala os dias, impede-me de enlouquecer, ou então fechar-me para sempre para o amor. Gosto de apostar em sentimentos, sentimentos meus que reflito em ti. Sentimentos um pouco absurdos, mas intensos, que fazem-me o coração pulsar. Aposto em tais sentimentos e permito que eles me tomem, me ceguem, me deixem muda e surda, gosto de apostar neles, mesmo que não sejam correspondidos.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

ama-me ou deixe-me



Filme: Revolutionary Road
Música: Love me or leave me – Billie Holiday


- Solta-me.
Falou isso de maneira clara e direta. Olhando bem nos olhos dele, com uma voz limpa.
- Solta-me agora!
Ele incrédulo largou o braço fino dela, contraindo os lábios numa atitude de quem segura a dor. Sofria. O relacionamento deles havia sido pautado numa triste fragilidade, onde um ou outro poderia simplesmente partir, sem explicação alguma. Era essa condição para estar juntos, a falta de vínculos.
Mas o que não podiam imaginar era que tal fragilidade chegasse a ponto de se romper o que haviam construído com certo esmero. Ela vivia calada, deixara de lhe contar o que pensava, esquecia de dividir coisas importantes de seu dia com ele, mantinha-se em seu mundinho, cada vez mais solitário. Ele evitava (desde o início) as palavras doces dela, julgava ser sentimentalismo demais levar tudo ao pé da letra, isso foi o que fez ela voltar a se calar. Estavam ambos parados, frente a frente. Ela resmungou um pedido de perdão, ele fingiu não ouvir.
Engraçado como duas pessoas que se gostam de verdade em um momento passam a não se reconhecerem. Era nisso que ela pensava. Que tudo que havia depositado sobre aquele homem havia se perdido, ele não a amava de verdade, apenas a achava diferente. Pegou o casaco sobre a cadeira, guardou a carteira na bolsa, secou uma lágrima que escorria lentamente pela sua face e saiu. Ele permaneceu em pé olhando a porta que se fechava atrás dela, sentindo pela primeira vez a sua falta.
(continua...)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

um segredo...


Filme: Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain
Música: Le Moulin – Yann Tiersen


Queria confessar-te o que sinto como quem confessa um segredo. Deixar-te um bilhete anônimo sobre a mesa, escrito com recortes de jornal para que não suspeitasses de minha letra. Fazer um joguete com as palavras, de modo decifrar um enigma e assim ao fim do esforço descobrir o que sinto. Queria murmurar baixinho um soneto, quase inaudível onde tu pudesses apenas compreender parte das estrofes, o “que seja eterno enquanto dure.” Ligar de telefones públicos, dizendo uma palavra ou outra até compreenderes uma frase inteira, sem me identificar, lógico. Mandar para tua casa um envelope com dezenas de textos, onde tu deverias supor o que se passa em meu coração ao leres todos. Queria confessar-te o que sinto como quem confessa um segredo. Mas não é um segredo qualquer, é praticamente um segredo de Estado. Deixar meu acanhamento de lado e dizer de uma vez por todas que apaixonei-me. O faria de modo que ninguém mais descobrisse, só tu mesmo, o mais interessado. Sentar-me ao teu lado, e timidamente segurar tua mão, dizendo baixinho, quase sussurrando um: “estou apaixonada...” Enquanto tu alegres me olharia sussurrando de volta um: “não deverias ter feito segredo...”

sábado, 21 de fevereiro de 2009

mal



Filme: The Reader
Música: Por causa de você – Dolores Duran e Tom Jobim

Desde o dia em que partiste é que fazes-me mal. Um mal cruel. Quando a tarde quente se fecha numa chuva, numa chuva longa que se estende até a noite e tu me chegas, é que fazes-me mal, na figura de um sonho, ou na cena de um filme, eu depositada sobre a cama inerte, presa em pensamentos que pairam sobre o ar. Pensamentos que me trazem tua imagem sorridente, uma imagem cruel. Pois sorris justamente nestas lembranças que fazem-me chorar. Desde o dia em que partiste é que fazes-me mal. Um aperto no peito que me impede de respirar, me trás uma debilidade física e emocional. Um espinho cravado na carne, que incomoda. E as dores não vêm em ondas. São dores constantes, daquelas que quase paralisam. Magoa-me o coração com palpitações quando sinto teu cheiro. Uma azia que me queima o estômago, tenho-te aqui mal digerido. Incompreendido. Desde o dia em que partiste é que fazes-me mal. Desde quando deixaste-me parada frente a tua partida, segurando um pranto sentido é que sinto dores. Fazes-me mal por deixar-me e ao caminhar desviar teu olhar para trás onde eu mantive-me imóvel esperando o último adeus, que tu sofrendo ofereceste-me. Desde esse dia fazes-me um mal danado. Tenho vertigens e sonos interrompidos por sonhar contigo. Acordo no meio da noite com tua silhueta parada em pé frente a minha cama. No entanto, ao acender a luz do abajur desapareces com a mesma rapidez com que chegas. Fazes-me mal. Um mal cruel que me embalará muitos dias, destinada a conviver com a tua falta esmagadora que só é suprida com a esperança de um dia voltares.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

"você não me ensinou a te esquecer..."


Filme: Lisbela e o Prisioneiro
Música: Você não me ensinou a te esquecer - Caetano Veloso


Veja, são teus olhos que procuro pelos transeuntes, miro-os com fervor, como se pudesse encontrar em tantos olhos tristes o brilho do teu olhar ao me sorrir com alegria. Caminho com passos firmes, em busca de uma estrada que leve-me diretamente ao teu encontro, como se eu pudesse ultrapassar as barreiras de tempo e espaço que nos foram impostas. Sussurro baixinho as palavras que me disseste, mantendo minhas mãos muito juntas como se eu pudesse apertar teus dedos. E assim vou perdendo-me pela cidade, onde cada espaço faz-me enxergar-te de alguma maneira. Carrego-te em meus bolsos, pequenos pedaços, um papel picotado. Ou líquido, preso em minha boca, misturado a minha saliva. Dou algumas risadas, espantando os que passam ao meu redor, mas é que recordo uma graça ou outra que me fizeste. E tu surges como músicas pelas ruas, canções tristes que embalaram muitas noites. Ou como um modelo no outdoor, sensual, provocando-me. Sinto que trago-te nos meus silêncios, e no cheiro da minha pele. Impregnado em cada espaço de meu corpo, o corpo que fizeste de morada, que despiste, mordeste, arranhaste e depois sorrateiramente deixaste. E até levo sinais de ti em mim, como as chagas de Cristo, sinto-me condenada a viver com teus sinais. Vejo tua boca numa esquina, tua língua e os lábios úmidos de prazer, enxergo tuas mãos acalmando-me e por fim, somos nós na cama que vejo numa cena de filme no cartaz do cinema. Caminho perdida pela cidade, e quando finalmente chego em casa, deixando para trás tuas multifaces, apresso-me em lavar a roupa, limpar as janelas, varrer o chão. Consigo limpar os móveis e deito-me sobre a cama que carrega teu perfume nos lençóis, pensando que em breve deixarei de ser tua e regressarei ao mundo das longas horas, do vazio, silêncios intermináveis e salas de espera.

“Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar...”

sábado, 14 de fevereiro de 2009

para que ficasses...



Filme: Edward Scissorhands
Música: Turn Me On – Norah Jones


Quando partires deixará por aqui uma história inacabada. Um sonho não contado, beijos sem ser dados, noites sem serem divididas. Quando partires, deixará um vazio imenso. Uma doença mal curada, palavras não ditas. Deixará teu cheiro em meus lençóis, teu sorriso estampado em minha memória. Quando fores embora carregará contigo parte de mim, uma vontade imensa de permanecer ao seu lado e com certeza algumas lágrimas de dor. Quando partires, deixará para trás uma esperança absurda de um reencontro, uma alegria contida. Quando fores embora calará muitas gargalhadas, acabará com muitas músicas. Quando partires não deixará muito, talvez algumas lembranças e quem sabe uma fotografia, deixará pouco de ti também, como se permanecer fosse um pecado. Quando partires, não nos restarão muitas certezas. Restará apenas a recordação da tua respiração ao meu lado enquanto dividíamos uma cama. Ficará o gosto do chocolate, a dança a dois, uma cumplicidade conquistada. Quando partires ficará a madrugada, as velas acesas numa banheira, e resquícios de um amor nos lençóis amarrotados. Quando fores deixar-me, deixará também uma saudade, e a covardia de jamais ter pedido para que ficasses.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

o que não podes dizer...



Filme: Le Scaphandre et le Papillon
Música: Dreams – The Corrs


Quando te calas desperta em mim infinitos tipos de medos. No entanto é teu silêncio que diz-me mais que qualquer outra palavra. Quando te calas, calo-me também, temendo proferir palavras erradas ou enganosas. Deixo-me cair sobre a cama, prendendo um pranto sofrido, te mirando silenciosamente. Quando te calas não tenho forças para levantar-me, não sei para onde ir, o que vestir, o que comer. Quando ficas calado prendo-me aos meus pensamentos, que pairam pelo ar neste silêncio mórbido. Deixo minha imaginação falar, e até tento adivinhar o que pensas. Quando te calas impõe-se entre nós uma pequena linha, da qual sem direito algum não posso ultrapassar. Quanto tu te mantendes calado, deixa em mim a sensação de alívio. Como se estarmos em silêncio pudesse ser nosso ápice de intimidade, quando nada dizes fico a vontade. Mesmo com tantos medos de teu silêncio escandaloso, o prefiro. Prefiro não ouvir nada de tua boca, ao ouvir palavras mudas que nada dizem.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

postcards from...



Filme: Quand j'étais chanteur
Música: Postcards from Italy - Beirut


Fazes-me falta. Uma falta dolorosa, como se tivesse perdido um membro, ou jamais ter conhecido a visão, tal como uma cega. É uma falta triste, repleta de projetos não concretizados, de verdades não confessadas. Fazes-me falta como o café matutino, ou a leitura antes de dormir. Fazes-me falta como um objeto perdido ou falta de um vício. Como se eu fumasse há muitos anos e de repente visse-me sem o cigarro, ou bebesse e o álcool me fosse tirado. Sinto falta dos segredos que ainda não foram contados, dos planos para o futuro que talvez ainda façamos, sinto falta dos nomes que daremos aos nossos filhos, ou de como será o projeto de nossa casa. Fazes-me falta porque devo supor que pensas em mim, e que quando a noite cai ficas a imaginar o que faço também. Fazes-me tanta falta porque ainda não tivemos chances de dividir uma noite inteira lado a lado, nem tivemos ciúmes um do outro. Fazes-me falta porque não pude amá-lo e nem preparar-te o almoço, fazes-me essa falta porque não vivemos uma história de amor e tu ainda habitas a minha imaginação.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

eu não nego, eu me entrego.



Filme: Paris, Je T'Aime
Música: Mais uma canção - Los Hermanos


Não te conheço suficientemente. De ti não sei quase nada, onde moras, com quem andas, que músicas gostas, que ares te fazem rir. Não sei o que te faz chorar, nem o que lhe causa dor. Não imagino que filme devas assistir aos finais de semana, e nem que bebidas prefere. Não conheço teu segundo nome, não sei quem são teus pais. Tento decifrar na memória os pequenos segredos que me confessaste naquelas noites que juntos nos sentíamos mais unidos que qualquer outro casal. Tento entender porque teimei em não te encontrar antes de partir, e hoje para nós nem adeus restou. Mas ainda sim, tu com uma estranha persistência mantendes-se preso na minha imaginação quando me pego a pensar como seria se tu morasses mais perto, ou se acaso viesses me visitar. Não te conheço suficientemente, no entanto, é contigo que faço planos, e que despeço-me prometendo mais conversas no próximo dia. Não o tenho ao meu lado, mas é tu que fazes-me rir feito tola quando ainda dividimos uma cumplicidade que nos foi negada pelo curto espaço de tempo. Tu que vive em meus sonhos, como se um encontro talvez ainda fosse possível. Sei-te aos pouquinhos, por adivinhações ou suposições. Também de mim não sabes quase nada, e ainda assim fazes questão de afirmar que ao nos despedirmos dá-me um beijo de língua. Não te conheço o suficiente, e por isso dividimos essa estranha amargura de nossas solidões compostas por pessoas, e silêncios mútuos que nos satisfazem. Tua voz ainda derrapa cá dentro como algo confortante e calmo que me alivia o peso das dores, e agora o que faço é te escrever de longe, porque verbalizar-te é o que de mais franco me resta. E quem sabe assim a sorte que nos sorriu uma vez nos propondo um primeiro encontro, possa sorrir novamente possibilitando o reencontro. E afirmo aqui que não quero que passes rapidamente sem deixar uma marca sequer, na verdade nem quero passes, quero que venhas e permaneças.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Aposto...



Filme: Cão sem dono
Música: Janta – Marcelo Camelo e Mallu Magalhães

Aposto que teu sorriso anda encantando outros olhos que não os meus. E que tua voz alivia as dores de outros dias que não os meus, e tua boca anda a beijar outros lábios. Até aposto que tu andas usando o perfume em outras noites, e tiras outras moças para dançar. Imagino que tenha se disposto a novos flertes, e como é de teu costume, poupado as palavras. Creio que lanças aqueles olhares tímidos a outrem sorridente, como foi comigo, e aposto que o silêncio confortante que eu tinha ao seu lado, hoje é preenchido por outra presença. Ocorre-me pensar que facilmente eu dividiria o frio da tua cidade ao teu lado, e que caminharia contigo noite após noite nas tuas rondas, como um ser solitário que é o que me parece, eu não lhe romperia esta barreira. Aposto que fazes estas rondas com alguém, e eu tenho a estranha sensação de jamais poder fazê-las contigo, e que só de imaginar nunca mais ver-te invade-me a pele calafrios e chego a apostar que tu também sentirás minha falta.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

o tempo não passou



Filme: The Curious Case of Benjamin Button
Música: Todo o sentimento – Cristovão Bastos & Chico Buarque


O que farias de minha vida se não houvesse a certeza de um dia ter lhe encontrado? O que seria destas palavras se despidas de nossas histórias, minhas lembranças e recordações do teu cheiro, pele, olhos e sabor? Seriam meras narrativas desprovidas de verdades e lágrimas frente à máquina. Seriam frases ditas sem intenções, segredos pronunciados num quarto vazio para que ninguém ouvisse. O que seria dos meus lábios se não fosse teu nome pronunciado silenciosamente noite após noite antes de dormir? E as noites? Como seriam sem sonhar com tua volta? As manhãs seriam vagas sem a esperança de ter-te ao meu lado e meus dias seriam vividos por motivos vãos que não o de um dia poder olhar-te novamente. O que farias de meu corpo se não o tivesse amado? Este corpo coberto de marcas, cicatrizes, tatuagens, sardas, varizes e sofrimento. O que seria deste corpo? Se eu nua parada a tua frente despida de vergonhas, mentiras e palavras vazias estaria entregue as tuas condições? O que farias de minha língua sem dizer-lhe mais uma vez, e mais outra, e outra que o amo e amaria por quanto tempo fosse possível e impossível de se amar alguém. Diga-me agora, o que seria deste ser se desprovido das palavras não pudesse confessar em tais linhas a dor que sofres, a esperança que vives e o amor que lhe é proibido?


"...Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente..."

sábado, 27 de dezembro de 2008

partida



Filme: Lost in Translation
Música: I’ll Back You Up – Dave Matthews Band


Vou-me embora. E com estas palavras fechei a mala prendendo um pranto dolorido. Tu parado frente a cama, me olhando com os olhos tristes, incrédulo de que eu pudesse ir realmente. Eu mantive-me firme, e não tive coragem de olhar-te nos olhos. Assim sai do quarto carregando a pesada mala que guardava para além de meus pertences, nossas lembranças. Ali dentro havia também fragmentos meus, uma leve recordação do que eu tinha sido antes de te conhecer. Tu não ousaste pedir para que eu permanecesse, e nem concordou com o fato de eu partir. Mas não podias dizer nada, a minha ida era tão certa quanto dois e dois são quatro. A saudade certamente nos atormentaria, e quem sabe por muitas vezes eu me arrependeria por ter saído por aquela porta sem olhar para trás. E se nos restou resquícios deste amor jurado eterno, sem dúvida alguma: eu acabo voltando.
***

Texto de despedida. O vento e a chuva devem retornar em meados de janeiro. Colocar os sentimentos em ordem é função da mente, não do coração. Por isso o retiro.

O texto também é em comemoração ao Preto e Branco do Vento e da Chuva, que neste dia completa um ano neste formato e com os devidos textos.

Desejo a todos um bom final de ano, muito descanso e paz.

Beijo grande,

Karine M.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

se você quiser


Filme: Elegy
Música: Ladder To The Sun - Coldplay


A noite passada que te encontrei, regada a bebida e boa música, fez-me sentir mais viva. Por um instante apenas, mas fez. E eu ria demasiadamente na tua companhia. E insistia em perseguir teus olhos, reparar na tua boca, no teu sorriso, nos teus dentes, para que se acaso não voltasse te encontrar eu pudesse recordar sem muito esforço. Até dispensei a bebida certa altura, para manter-me sóbria o suficiente e ter uma boa conversa contigo. Insistia em puxar papo, e vez ou outra tua mão passeava pelas minhas costas. Tu fazias uma graça com meu vestido curto, e dizia ter sorte por ter me encontrado. Até que um beijo veio de súbito, me roubando as palavras, o fôlego e um belo sorriso. A noite passada que te encontrei fez-me sentir mais viva. E até quando nos despedimos jurando não perdermos o contato e conversarmos mais eu ainda me sentia muito bem. Se eu não estivesse com meu carro, teria partido contigo para onde quisesse. Também tivemos aquele momento de silêncio dentro do carro, enquanto o som tocava baixinho, como se tentássemos adivinhar o que o outro pensava. Confesso, eu estava feliz por ter te encontrado. E parti lhe deixando um tchau pela janela, com um sorriso bobo nos lábios. E tu parado esperando eu dobrar a esquina. Hoje pela manhã tentei adivinhar que horas me ligaria, até que findo o dia eu pude constatar: tu não ligaste no dia seguinte.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

não é mais um segredo



Filme: Must Love Dogs
Música: Like a Star – Corinne Bailey Rae


As ruas daquela pequena cidade ao sul ainda continuam as mesmas. Recordo termos andando por elas muitas vezes. Tu segurando minha mão, outras vezes separados, outras calados, na maioria falando muito. Era a euforia da paixão, a paixão que nos consumiu a pele, os ossos, os olhos e a boca – pelo menos comigo foi assim. E até tropeçávamos nas palavras, ditas com pressa para que o outro pudesse compreender ligeiramente a paixão que vivíamos. Talvez tenha sido uma destas palavras mal pronunciada que deixou um vazio entre nós. Ou uma frase mal-feita. Recordo termos deitado lado a lado por noites frias e mal nos tocarmos. Como se pudéssemos cometer um erro. Na verdade, quando a noite caía naquela pequena cidade ao sul, cobrindo com seu manto escuro e frio as luzes de um dia, nossas mentes perdiam-se em pensamentos, em lembranças de palavras não ditas ou frases mal-feitas, como se remoendo a mente pudéssemos encontrar um modo certo de dizer certas coisas. O problema é que existem coisas que não são ditas. Palavras inaudíveis. Porém algumas sensações precisam ser reafirmadas pelas palavras, estas que não pronunciamos no momento certo, e se o momento certo passa, ele não volta mais. Gostaria de dividir as calçadas daquelas ruas da pequena cidade ao sul contigo mais uma vez, para tentar recuperar palavras não ditas ou frases mal-feitas. Apertar tua mão mais uma vez, ou só caminhar ao teu lado. Gostaria de dividir por mais uma noite uma cama contigo e confessar no escuro do quarto que o que eu desejava lhe dizer naquela tarde era um simples eu te amo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

feliz natal



Filme: Noel
Música: Be Here to Love Me – Norah Jones


E finalmente chegou o Natal. Das ruas apinhadas de gente, com canções doces embalando os passos dos distraídos. Das sacolas com compras, presentes coloridos. Das confraternizações em família, jantares dos amigos, ceias repletas de guloseimas e mesas cheias. Chego à livraria, e encontro a edição que buscavas há tempos, miro um cartão vermelho, da escrita delicada em preto, desenhos em dourado e verde, penso que finalmente chegou o Natal, outro e mais um em que tu não estás. Para afastar a tristeza deste Natal fico a imaginar que presente te daria. Um disco, o tal livro. Como estaria o nosso lar, a noite em que decoraríamos a árvore. As luzes a piscar. Tuas risadas e tua conversa a me fazer companhia na cozinha, enquanto eu preparava mais rabanadas e recheava a ave, e tu com ares de graça mexia comigo e fazia-me rir feito tola, embriagados de vinho tinto e mais dois casais de amigos que jantariam conosco. Tuas mãos me provocando, enquanto juntos faríamos os planos do próximo ano. Feito crianças comemorando a tinta fresca de nossas paredes, e os azulejos recém colocados, era o nosso lar. O cheiro da grama plantada recentemente e vaga-lumes vistos da janela. Recomponho-me ao presente, deixo sobre o balcão a edição do livro que desejavas, cato as moedas soltas na bolsa e entrego o trocado. Levo o cartão para recordar este Natal. O cartão vermelho da escrita delicada em preto, com desenhos em dourado e verde. Do envelope dourado também, que azar. Parto para a casa, onde repousa sobre a cômoda um retrato teu e sinais da minha devoção. Finalmente chegou o Natal, e tu não estás.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

um dia...



Filme: Conversations with Other Women
Música: Sapato Novo – Los Hermanos


Ocorreu-me hoje o que se chama nostalgia. E até dei para olhar teus retratos, recordar conversas, projetos não concretizados, e imaginar um “e se estivéssemos juntos”... Onde estaríamos? Essa tal nostalgia nunca havia me abordado. Dantes era saudade, lembranças, falta, solidão que havia chego. Jamais nostalgia. E ela que não é boa, nem má, nos envolve num manto frio de passado, onde enxergamos cenas em preto e branco, do que passou e não volta mais. Tu estavas belo nas recordações. E até permiti-me ver um velho vídeo, tu mais eu rindo-se sei lá de quê, dividindo uma estranha cumplicidade, que infelizmente não tive com mais ninguém. Um velho vídeo onde eu ainda tinha os cabelos longos, e tu ares de menino. Um vídeo em que eu era tua, e tu não eras pai. A nostalgia dos anos mais leves e até mais coloridos, cheios de música e dança. E tu ainda a me agradar, e eu ainda achando que seria para sempre. Ocorreu-me hoje o que se chama nostalgia. E ela tirou-me a paz.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

permitir



Filme: Pride & Prejudice
Música: Pride & Prejudice Soundtrack - Credits



Neguei-me a chance de amar-te. De início só Deus sabe como fui relutante com tal amor, por quantas vezes evitei encontrar-te, e o medo de topar com teus olhos me arrepiava a espinha. O julguei no começo prepotente por achar que tinhas direitos sobre mim, e depois o julguei orgulhoso por não ter me confessado o que sentias de fato. A princípio o taxei de egoísta, insensível e sem compaixão. Depois constatei que eras somente egoísta. Neguei-me a chance de amar-te. Com muita dor, neguei-me. E ainda assim desfilava pelos corredores atulhados de gente, para que me visses de longe, ou eu tivesse sorte de ver-te caminhando. Ou então, depositava meus olhos tristes sobre a minha volta a tua procura, esperando que insistisse mais um pouco. Mais que isso, esperando que me provasse estar enganada. Custou encontrar-te novamente, e por mais uma vez como tola, desperdicei a chance de ter-te ao meu lado, pois relutante, pus-me a gritar contra tuas condições, e mal sabia que tais condições seriam nossa salvação. Neguei-me a chance de amar-te. Como pude estar tão cega? Se tudo que esperavas de mim era um pouco de consolo, ou de conforto. Não via nada para além de minha solidão, que me tornara tão arredia, e tu pacientemente esperaste que meu coração partido em dois voltasse a bater, daquele modo só teu, a mirar-me com as sobrancelhas comprimidas, tentando decifrar o que se passava neste peito pequeno de mulher, enquanto eu ainda relutante aprendia a compreender que só poderia ser tua se eu me permitisse te amar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

quem sabe...



Filme: Before Sunrise
Música: Sometime Later - Alpha


Queria dizer-lhe que por estes dias não ando bem. Apetece-me crer que é a tua falta que tem tomado mais de meu tempo, e isso é tão desagradável. São incontáveis horas na cama, olhando para o teto a matutar onde deves estar neste momento. Ou inúmeras idas ao computador esperando um e-mail, isso quando não desperdiço não sei quanto tempo esperando tu me ligares. Tem me feito tão mal. E ouso afirmar que de uns tempos pra cá tem sido pior, dantes eu suportava a dor que me apunhalava o peito e arranjava sei lá que maneiras para distrair-me, mas agora, chegada as férias o que faço é martelar na minha mente as lembranças e sentir-me fraca para te afastar dos meus sonhos. É tão desgastante. Digo que no último ano, envelheci dez. E grito a todos que queiram ouvir, a culpa é sua! Faze-me refém deste amor infeliz, e nem teve coragem de procurar-me para dar-me a alforria. Tudo bem, eu ainda posso esperar mais um ano, quem sabe...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

confissão


Série: Grey’s Anatomy
Música: Warning Sign - Coldplay

Confessa que andaste por aí a procurar-me. Que ao cair da noite lhe batia a antiga ansiedade de nossos encontros, e arranjavas uma maneira de desviar o pensamento. Confessa que perdido perguntaste por mim, por onde eu andava e o que fazia. E que tu estremecia ao imaginar-me nos braços de outro. Confessa teu desespero na primeira noite em que não me viste, a falta que te fiz e a saudade que te tomou por inteiro. Confessa que choraste por muito tempo arrependido, mas que lhe faltava coragem para voltar atrás. Podes confessar tua fraqueza. Confessa que mesmo hoje a beijar outra boca, sonhas com a minha, e ainda lembras-se do sexo quente e desprovido de vergonha que nós tínhamos. Vai, confessa o medo que sentes em pensar que não me verá mais, e que a vida sem nossos encontros perdeu a graça. Confessa as noites em claro, e os planos que fizeste para nós. Confessa, podes confessar as tantas vezes que me telefonastes durante a noite só para ouvir minha voz, os cafés sozinhos imaginando minha companhia, o cinema solitário sem minha mão na tua. Confessa a mesma dor e falta que tenho sentido, e que ainda tens a mesma capacidade que eu para retornar, confessa, vai, por favor... Não podes confessar nada disso? É uma pena...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

"eu sei que vai ser muito bom..."



Filme: Marie Antoinette
Música: Certeza – 3namassa – (Interpretação de Leandra Leal)



Se isso era um jogo, ainda faltava-me criar as táticas, preferia ter me mantido daqui a observar-te, estudar teus atos, analisar teus passos. Chegada à hora coloquei minhas peças no tabuleiro. Negras contra as brancas. O primeiro passo dado é teu, em seguida te prendo num canto. Depois tu atacas, ganha uma peça minha. Um a zero para ti. E assim damos continuidade ao jogo. Uma disputa de quem resiste mais. Por hora recuo, seguro o jogo, faço-me mais difícil. Tu perdes a paciência, insiste para que eu seja mais corajosa. Consigo driblar-te, e uma peça tua vem para mim. Estamos quites. Tu não aceitas, parte para a ofensiva, assusta-me. Sem vantagens tu não gostas de jogar e sai na minha frente. Então eu paro, e faço uma análise rápida do que queres. Em silêncio dispenso minha tática. E com a delicadeza e paciência que me confere atravesso o tabuleiro. Viro o jogo. Agora és tu que estas em desvantagem. Mas nem assim entrega teu jogo. Persistente, persegue-me o tabuleiro inteiro. Se tu não ganhares, o empate não convence. Eu protelo, te encaro olho no olho. Tu maliciosamente sorris. Dou meu último passo, numa tentativa vã de fugir de ti, enquanto tu me alcanças. Pronto, conseguiste, tu vais comer a dama.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

perder



Filme: Belle de Jour
Música: Don't Cry Baby – Madeleine Peyroux


Chegaste tarde, ou cedo demais. E teu sorriso a acertar-me em cheio a visão, paralisando-me por um instante e depois deixando-me meio sem graça. Um beijo na face para que eu recordasse teu perfume, e mais uma vez sentisse-me confusa. E depois era a tua conversa expansiva, e os carinhos fogosos que me fizeram bambear para teus lados, até que contive-me. Não sei se vieste tarde demais, ou muito cedo. Mas a penumbra da noite, e a bebida para disfarçar a solidão deixaram-me tonta, e não sabia dizer se a euforia era por que estavas ali, ou por que não queria que estivesses. Por entre os teus toques e minhas atitudes arredias, ainda permanecia um resquício de vontade. Uma persistência que para mim era desperdiçada, e para tu serias uma conquista. E quanto mais tu te aproximavas mais inerte eu permanecia, e quando chegaste perto suficiente para que perguntasse, eu fria como gelo respondi que não.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

estava pensando

Filme: P.S.
Música: Thinking About You – Norah Jones


“Por que desististe tão rápido?” Permaneço sentada na mesma mesa em que disseste-me um dia que era feliz ao meu lado. Enquanto o garçom traz mais um e mais um drinque. É no degustar da bebida que insisto na pergunta “por que desististe tão rápido?”. A típica pergunta sem resposta, que feita para tu mesmo não saberias o que me dizer. Enquanto eu tento descobrir o enigma não decifrado, ou a parte do jogo que não entendi. Tento encontrar pistas em que trecho do trajeto o passo foi dado errado, ou que caminho tomei por engano. Meio em vão as tentativas, tentativas vãs. E permaneço sentada na mesma mesa de bar, mirando o telemóvel, vai que ligas-me. Ou mandas uma mensagem. Não com pedidos de perdão. Mas talvez propondo-me um acerto de contas, mesmo eu sabendo que não responderia a pergunta “por que desististe tão rápido?”, no entanto, ainda me destinaria mais vinte minutos do teu dia, para que olhando teus olhos eu pudesse te compreender.

Denúncia

Para informar a todos os leitores e amigos:

Este blogue está sendo plagiado descaradamente no seguinte endereço:

http://ligiacz.blogspot.com/

Peço a colaboração de todos para a denúncia e apoio.

Obviamente todas as medidas legais estão sendo tomadas.

Att.

Karine Mazarão

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

acreditar



Filme: Spellbound
Música: Embraceable You – Billie Holiday

Já não me oferecias muito. E nem assim queixava-me. Como se me fizesse um grande favor em dedicar horas de tuas semanas a minha pessoa triste. Ou era teu jantar, ou um café da manhã. Jamais um almoço, ou até mesmo um dia inteiro. Eu era uma condição, um apêndice da tua vida, na verdade, apetece-me pensar que era mesmo uma pedra no teu sapato. Mas que mesmo te incomodando, não arranjavas modo de tirar-me. Nunca me queixei, ai de mim. Já não oferecias muito no começo, ao fim oferecias quase nada. E ainda assim mantinha-me fiel aos teus preceitos, como boa amante que sou, jurei-te paciência a uma vinda tua que nunca chegou. A rara esperança que me oferecias, convencia-me de que tu tinhas um sentimento guardado só para mim. Já não me oferecias muito. E o pouco que me dedicava era com pesar, via em teus olhos um esforço sobre-humano em me agradar nas poucas horas em que estavas comigo. E nem assim queixava-me. Para que eu sobrevivesse mais um dia, bastava acreditar no pouco que me oferecias.

domingo, 30 de novembro de 2008

ese recuerdo cruel



Filmes: Lugares Comunes
Música: Amargura - Alfredo Le Pera e Carlos Gardel

Hoje, apetece-me crer que os domingos não são mais os mesmos. Tenho tentado disfarçar a mudança, preenchê-lo de atividades atulhadas de pessoas e risadas, idas e vindas de eventos e compromissos sérios, ou até mesmo desmanchando-me na grama do descampado, para que afastada de casa eu não note que os domingos não são mais os mesmos. Inevitável é quando o sol ponha-se a deitar, e vejo partir com ele a falsidade de meu dia, e retornar ao lar – que é quase uma obrigação – desperta em mim a sensação que findo o final de semana, não estive outra vez ao teu lado. E que amanhã, na segunda, eu novamente não o verei, nem terça, quarta, quinta ou sexta. Por mais uma vez, arrasta-se a semana, e ao final dela, bate-me o desespero.
Mas difícil mesmo, são os domingos, estes que agora não são mais os mesmos. Hoje, domingos cansados, preenchidos de horas fora de casa, e finais de tardes melancólicos. Domingos perdidos, onde projeto tua imagem como modelo de algo perfeito e intocável, são os domingos que me lembram que partiste definitivamente, e o amanhã permanecerá solitário.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

próximo



Filme: Far From Heaven
Música: Painter Song – Norah Jones


Nunca estivestes tão perto. Apesar da falta da tua presença, apesar da distância e do silêncio. Jamais o senti tão próximo. Na garoa que insiste em cair e molhar meus passos ladeira abaixo, ou na esquina tomada por jovens marginais da típica noite fria da cidade. Nas reflexões e decisões a serem tomadas. Na fala e escrita. Nas canções tristes que me embalam noite após noite. Nunca estiveste tão perto. Nas risadas forçadas dentre amigos, e bebidas, bebidas, bebidas, e bebidas. Nas histórias de um passado nem tão distante, em alguns planos para o futuro. Apesar de não estares ali, estiveste muito perto. Nas noites agitadas sem dormir, no mal-estar do meu corpo, na cena em que a donzela ganha um beijo longo e apaixonado de seu amado. Nas poesias de Vinicius e Espanca, no solo de trompete de Davis. Nunca estiveste tão perto. Na poeira dos móveis a ser removida, nas relíquias de meus pais, antigas cartas de amor, velhos retratos. Na gaveta trancada, na cama não estendida. Louça suja, papéis sobre a mesa. Num bocejo que me atravessa a manhã silenciosa, num resto de suspiro de tédio. Apesar da falta da tua presença, distância e silêncio. Nunca estiveste tão perto.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

resposta



Filme: Vertigo
Música: Yesterday – Billie Holiday

De quando me perguntavas se estava certa de que era isso que eu queria. E eu consentia com a cabeça, calada, contraindo os lábios e tu abraçavas-me com força, feliz da vida por ter me conquistado. Vez ou outra fazia a mesma pergunta, de tempos em tempos para reforçar tua certeza de que me tinhas nas tuas mãos. E sem titubear eu afirmava que sim! Tu sempre a caminhares na minha frente, indicando-me caminhos a seguir, tomando as decisões e desesperando caso eu não aparecesse. De quando tu ias aos nossos lugares de encontros com sorrisos infantis, e mãos trêmulas, gaguejando um oi ensaiado, nervoso mostrando tua nova descoberta musical no som do carro. E me perguntavas se era isso mesmo que eu queria, e eu segura, permanecia no sim. De quando juntos escolhíamos o vinho e o jantar da noite, o quarto de motel que dividiríamos e jurávamos a nós mesmos estarmos fazendo a coisa certa. Tu sempre calado e pensativo, eu a falar pelos cotovelos tentando ocupar o espaço que o silêncio impunha entre nós. De quando tu dizias que eras apaixonado e não sabia mesmo como viver sem mim, e eu acreditava. De quando tu fizeste a pergunta certeira novamente: “É mesmo isso que queres?”. E neste momento olhei para baixo, vacilei na resposta.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

campina



Filme: Vicky Cristina Barcelona
Música: Granada - Emilio de Benito

O lugar que era nosso, nunca mais visitei. Mentira. Estava passando perto dele num dia desses e resolvi parar o carro, olhar de longe as árvores agitadas com o vento, e as folhas caídas pelo chão a forrar de um tapete ocre. Mentira. Desci do carro, e caminhei lentamente e sorrateiramente para que ninguém notasse minha ida triste. Mentira. Saltei correndo do carro, e dirige-me com muita pressa até a árvore que fazia a bifurcação no céu, onde deitávamos rindo um do outro. Porém, havia a grama mais alta que de costume, e um estranho abandono daquele campo, os bancos empoeirados, e numa atitude os limpei com os olhos, lembrando das tantas vezes que nos sentamos ali. Mentira. Desesperada andei de um lado para o outro tentando imaginar o que havia acontecido, com aquele que um dia foi o nosso lugar. Dei para caminhar procurando vestígios de uma época cor de aurora, e o vi encostado no velho casebre de madeira, com um cesto cheio de frutas, queijo e vinho, com a toalha xadrez em vermelho que tu já preparavas para estender como de costume. Via nosso cão a correr pela campina, enquanto o gato ainda filhote limitava-se a brincar com as rendas da minha saia. Então te via se espreguiçando, esticando, esticando num gemido longo e delicioso. Enquanto te preparavas para correr. E eu mirava teu corpo belo e esguio a rolar pela grama com nosso cão, numa felicidade quase traiçoeira. Voltei para direção do carro, e nos mesmos passos tristes dirige-me a saída da campina, abandonando o casebre, e as ilusões da tua imagem, do nosso cão e do nosso gato. Não derrubei uma lágrima sequer. Mentira. Havíamos concordado que era melhor para os dois à distância, e eu aceitei desde o início tuas decisões e a única coisa em que pensei foi: o nosso amor faz-se belo e único por nunca ter se completado. Mentira.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

sábado, 22 de novembro de 2008

E só o amanhã guia meu caminho



Filme: Mar Adentro
Música: #41 – Dave Matthews Band

Quando partiste não deixaste uma explicação de como viver sem ti. Nada escrito, uma carta, uma dica, que rumo tomar, pra onde ir, como me portar. Nada. Partiste simplesmente largando-me no meio da sala aos prantos, como um jogo sem manual de instruções para ser montado. Quando partiste não ensinou-me o caminho da rua, nem disse-me como fazer o almoço quando não vinhas, não falou como vestir-me, ou como a partir de agora usar meu cabelo. Não deixou-me garantia alguma de regresso, e nem disse que era um teste, daqui 30 dias estou de volta. Não, nada. Quando partiste não deixaste uma explicação de como viver sem ti. Procurei manuais de instruções, e listas, mas tu não deixaste nada. Enquanto eu permanecia sentada, partida em pedaços, esperando que entrasses porta adentro ensinando-me como recomeçar.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

noite passada



Filme: Closer
Música: Nothing as It Seems – Pearl Jam


Ontem o vi de longe, do balcão onde estava sentada, e tu a abraçava da forma costumeira, tuas mãos passeavam pelas costas dela e vez ou outra enchia-lhe a bochecha de teus beijos gastos. O vi de longe, mantendo-me na mesma posição cansada de abandonada, onde o único conforto que encontramos é o das próprias mãos se esmagando para contar a dor no peito. Ontem o vi de longe, mantendo a polidez de meus atos ao pedir mais uma taça de vinho, enquanto tu desfilavas com ela e exigia olhares dos amigos que estavam a tua volta, para que assim afirmasse mais uma vez perante todos que não era mais eu que estava ao teu lado. Ontem o vi de longe, quando entrou no bar, trouxe contigo o fardo do meu dia solitário, e por alguns segundos animei-me com o fato de enxergar tua imagem, até deparar-me com tuas mãos dadas com outra. O vi de longe, e limitei-me a ação concreta de conter lágrimas e nem cumprimentar-te, mas foi inevitável, tu viu quando parti e tua voz chamando-me de longe carreguei pela rua afora embaixo da chuva, e não pude mais voltar.

sábado, 15 de novembro de 2008

já não era pouco...



Filme: Perfume
Música: Sur Le Fil – Yann Tiersen


Como se não bastasse, é o cheiro que agora me invade as narinas que me deixa assim. Essa mistura de álcool, cigarro e suor. O cheiro da noite em que o vi pela primeira vez, e esse odor todo me toma de súbito e domina cada centímetro do meu corpo, como se assim eu pudesse voltar àquele dia. E ainda deparo-me com um macho ao meu lado com o mesmo perfume que tu usavas, e esse cheiro sim me despertou a saudade do teu corpo junto ao meu. Todos estes cheiros misturados, cheiros de homens diferentes, mas nenhum é como o seu, que eu seria capaz de reconhecer em um segundo. Mas são estes cheiros que me envolvem e me embriagam com a capacidade de transportar-me a outra época. São os odores da noite misturados a minha bebida que me permitem uma viajem no tempo. Os cheiros que a madrugada nos apresenta, principalmente o do cigarro, que com sua névoa nos envolve numa esquisita dança de conforto e solidão, e o lugar onde há tantas pessoas torna-se vazio, pois mesmo todos os perfumes do mundo não seriam capazes de satisfazer a falta que o teu cheiro me faz.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

no mundo, sem você...



Filme: Ricordati di Me
Música: Sem você – Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Interpretação de Chico Buarque)


Nem passas pela tua cabeça o dia que tive hoje. Nem imaginas os incontáveis planos que fiz, quantas vezes pensei no que lhe dizer. Não sabes quanto tempo demorei no banho, e quantas roupas provei. Nem imaginas o mal estar que me tomou de súbito, e a falta de coragem de sair de casa. Também não pensas em como foi difícil arrumar meu cabelo, escolher os brincos. Não sabes que fiquei chateada por não ter marcado a manicure para hoje, e que me atrasei com algumas tarefas - o que me deixou extremamente irritada -. Ah, tu não imaginas como acordei, como foi difícil cevar o mate sozinha na cozinha, e esperar, esperar que o dia corresse rápido. Não, tu não sabes da dificuldade em concentrar-me no novo livro, e a falta de inspiração na hora da escrita. Tu nem pensas na ansiedade que foi olhar para o relógio e ver as horas passarem lentamente, tipo de um castigo, eu não via a hora de terminar o dia. Nem passas pela tua cabeça o péssimo dia que tive hoje. E uma hora antes de sair de casa, desesperada pus-me a arrumar-me na esperança de que hoje, somente hoje eu conseguisse te agradar, que sufoco... Nem imaginas como foi enfrentar o trânsito, as buzinas e meu mau-humor. Não sabes que contive as lágrimas por mais de três vezes até chegar ao local onde esperava te encontrar, não sabes que fui ouvindo o cd que havias me dado de presente e que antes de descer do carro passei o perfume que gostavas, não, tu não sabes de nada disso. Também não sabes que desci do carro correndo e esqueci-me de acionar o alarme, e que subi as escadas com pressa olhando para os lados na ânsia de te ver, não imaginas o que senti ao deparar-me com o que havia ali... Nem passas pela tua cabeça o desapontamento no meu olhar ao notar que tu não vinhas.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

somente quando eu durmo



Filme: The English Patient
Música: Only When I Sleep – The Corrs


Dantes vinhas com mais freqüência. Punha-se a sentar no degrau da varanda, onde eu podia te observar da janela da sala. Sentavas lá e vez ou outra dirigia uma palavra em direção a janela, pois sabias que eu o observava. Vinhas durante as manhãs, assim que eu acordava e se instalava no mesmo lugar como quem não podias partir. E lá ficava até a noite chegar e eu num sussurro desejar-te boa noite. Era assim, tu vinhas. Até que tuas visitas tornaram-se cada vez mais raras, dei-me conta que só o via no degrau da varanda ou pela manhã, ou à tarde. Depois tu vinhas por poucos minutos, e sumias, e no momento seguinte eu olhava e tu não estavas mais lá. Enfim num dia veio, sentou-se como de costume e pus-me a chorar o observando, com a sensação de que irias e não voltarias mais, pois vinhas sem que eu precisasse o chamar. E hoje não apareces na varanda, fico na janela a observar, mas não vens nem se eu insistir em gritar teu nome e o que restou-me foi a lembrança da tua presença em meus dias, pois não invades mais meus pensamentos, abandonastes meus sonhos e isso quase mata-me de saudades.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

condição



Filme: The White Countess
Música: Love Walked In – Ella Fitzgerald


És crucial. Necessário, importante, real. És isso. Teu caminho que nunca cruza o meu, mas ainda assim segue tortuoso a minha volta, nem paralelo é. Só estás a minha volta. Quando partes é um alívio, um descarrego, e se não vens é um desespero, um sofrer. Quando chegas perto demais é um silêncio, um respirar fundo. E se tu te afastas é uma solidão, uma dor. Quando não estás é um jorro de palavras sem sentido e bebida em demasiado, e se chegas é o medo, a vontade de sumir. Se tu sorris demais é um incômodo, e se não sorris, preocupo-me. Se tu te calas, fico curiosa. Se tu falas muito o odeio. Se tu olhas ao redor, me procuras. Se não olhas, é porque me esqueceste. Quando tu bebes muito, é desespero. E se não bebes é porque te cuidas. Se tu me olhas por muito tempo, sente saudades. Se não me olhas, é porque não me notaste. Quando tu chegas, se vens falar comigo é porque não se agüenta. Se só me cumprimentas de longe, é porque tens medo. És crucial. És isso. Não sei se doença, vírus ou infecção. Inflamação ou febre. Ou se és apenas essa dolorosa condição.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

onde o destino não previu



Filme: Dear Frankie
Música: Pois é - Los Hermanos


Dizes-me agora, vais partir mesmo? Estou parada a tua frente com o choro contigo, contraindo o lábio para não gritar de dor. Vais partir mesmo? Enquanto tu com muita paciência busca as malas no quarto, e as arrasta como se carregasse o fardo de um covarde. Eu acendo o cigarro mirando tua dança de despedida, onde espera que eu peça para ficares, e tu finjas que mudou de idéia por piedade. Vais partir mesmo? Enquanto tu disfarças mentindo que procuras o carregador do telemóvel, andando de um lado para o outro, desesperado com o meu silêncio cruel, eu apago o cigarro e acompanho todo o teu movimento sem mover um músculo sequer. Vais partir mesmo? Assim é que tu lanças o último olhar para a minha direção, com os olhos parados num pedido de perdão silencioso, gira a maçaneta da porta e sai a fechando atrás de ti. Enquanto levanto-me e estaticamente fico olhando a porta que acabaste de fechar. E quando escuto o som das tuas chaves a trancando e teus passos escada abaixo é que me ajoelho e histericamente ponho-me a chorar com gritos de dor, pedindo para que voltes. Tu não olhas para trás. Ignora meus gritos. Tu te colocas a correr como um pequeno rua adentro, deixando pra trás as contas para pagar, o aluguel adiantado, tua sogra reclamona, um bolo de cenoura no forno, e as velas acesas na banheira. Corres rua adentro até encontrar teu carro, e partes em busca de uma nova vida, pegando a estrada para o sul deixa tudo para trás. Deixas também um emprego infeliz, um patrão exigente e alguns amigos que não fazes questão de encontrar. Deixas até mesmo o novo investimento no lar, a única coisa que não consegues deixar para trás é minha imagem estática, parada frente à porta que tu fechaste.
Isso tu não irás esquecer.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

na minha



Filme: In the Cut
Música: Black – Pearl Jam


É a tua imagem que chega no meio da noite, e como um fantasma tu entras em baixo de meus lençóis, e conta-me segredos ao ouvido, fazendo minha pele arrepiar. São teus pés que sinto aquecerem os meus, e são tuas mãos que passeiam pelo meu corpo despertando em mim o desejo adormecido. E é a tua língua que lambe o meu pescoço, minha nuca, com beijos doces até chegarem aos meus lábios. E é a tua respiração que me acalma, e tuas risadas que me fazem rir. E são teus olhos que me iluminam e me despem das vergonhas retrógadas do meu ser. E é teu cheiro que me embriaga e teus braços que me envolvem. São tuas pernas que me prendem, e teu corpo que me deixas louca. É tua barba que me arranha, e o teu suor que se mistura ao meu. São tuas unhas me arranhando e a ansiedade de estarmos juntos que me marca a pele. E tua imagem chega após as 2:00 da madrugada, como um fantasma invadindo minha cama e possuindo meu corpo como se fosse a tua casa, e por mais uma noite torturo-me ao lembrar do nosso amor, até dar-me conta de que não é na minha cama que tu dormes. É na cama de outro alguém, e responda-me: por que não poderia ser na minha?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

em meu lugar



Série: Grey’s Anatomy
Música: In My Place - Coldplay


Toda vez que topo contigo é a mesma tortura silenciosa. Entendes? Como se eu chorasse por dentro, e tu não tivesses o direito de saber. Calo-me numa expressão assustada, onde resta-me apenas a cordialidade de bons colegas (que é o que somos). E sinto-me como uma amante abandonada, doente e suja. Como se tu tivesses sugado de mim a dignidade e agora, aqui, eu só fosse composta por cacos, pequenos pedaços dispersos que lutam para unirem-se. É assim que sinto-me toda vez que topo contigo. E se tu me diriges a palavra, meu dia quase acaba, nem sei o que responder-te, para além de desespero e a saudade esmagadora que ainda estou sentindo, se queres saber de um certo relatório, constato que ainda o amo e não, não escrevi o relatório, porque pensei em ti a noite toda. É assim que sinto-me. Essa incompetência, esse amputar de membros, a fraqueza de ver-te, talvez já não tão lindo quanto nos conhecemos, mas ainda assim capaz manter a mesma força sobre mim. Toda vez que topo contigo é um enjôo súbito que me toma as entranhas, e se chegas muito perto o teu perfume me sufoca, se minha pressão não cai é por sorte, porque desmaiar diante de ti não seria quase nada. E se tu me chamas para um café até penso em mil desculpas para recusar, mas a felicidade de ter-te ao meu lado novamente é tanta, que o que faço é consentir como uma cadela adestrada e seguir-te para onde for. É assim que sinto-me. E quando sentamos na pequena mesa, insisto na pergunta que quero fazer a muito tempo: “Tu ainda amas ela?”

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Todas las horas que quedaron por vivir


Filme: Tu vida en 65’
Música: Por que te vas – Javier Alvarez


Tu sempre agiste corretamente, eu pecadora troquei os pés pelas mãos e por mais uma vez mandei as favas o que sentias por mim. Tu sempre avisou-me, manteve a ordem da casa e a cordialidade polida. Eu, desvairada dei meus shows, desesperei-me e a falta de paciência (meu maior pecado) veio buscar-te numa tarde fatídica de domingo. Tu sempre sorriste, até quando brigávamos, como se tu pudesses estar acima de nossos problemas, e os diminuía frente ao que sentias por mim. Eu, o achava sínico, e me punha a gritar histericamente contra tuas atitudes. Tu sempre esforçou-se, sim, sempre. Estava sempre disposto a ouvir-me, aceitar-me e, sobretudo a perdoar-me. Eu, nunca te liguei, nunca o ouvi e quando tu erraste, eu não soube perdoar. Tu sempre calou-se, abaixou tua cabeça e suspirou fundo. Eu, sempre me achei dona da razão e lhe dava lições de moral gratuitas, só porque achavas que tu não me merecias. Tu sempre agiste corretamente, eu cega mundana perdi-me dentro de meu egoísmo e não fui capaz de reconhecer em ti o amor que tanto esperava. E numa tarde fatídica de domingo partiste, e eu pus-me a chorar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

sobre a mentira



Filme: The Painted Veil
Música: Desalento – Chico Buarque

Mentias ao dizer que não sentia mais nada por mim. E continuas a mentir ao sustentar isso. Não podes estar dizendo a verdade quando brincas comigo como uma amiga qualquer, vejo em teus olhos que as coisas não são assim. Mentes quando dizes que vai bem, que meu perfume não te faz falta, que nossas conversas não preenchiam teus dias. Mentes ao dizer para nossos amigos que é melhor assim, tu lá e eu cá. Mentes ao tratar-me com educação, sendo que tua vontade é beijar-me, abraçar-me e dizer que não sabes como viver sem mim. Eu sei, e tu sabes disso. É mentira contermo-nos, é mentira mantermo-nos assim tão afastados. Sentimos isso em nossas peles quando nos tocamos sem querer, é como se elas aclamassem por um toque mais longo e intenso. Como se teu corpo gritasse que ainda deseja-me com a mesma intensidade. Mentias ao dizer que fomos mais felizes no passado, porque agora temos todas as chances do mundo de voltarmos a sermos felizes, e sinto que as estamos deixando escapar. Mentes ao beijar outras bocas, a lamber outras peles, a ajeitar outros cabelos. Tu mentes. Mente porque toda vez que fazes isso, lembra-se de nossos beijos, a minha boca, a tua língua na minha pele, no meu pescoço. Quando tocas outros corpos lembras de nosso sexo não consumado, das noites que sonhamos passar juntos e nunca aconteceram, lembras do meu corpo feito para o seu, das tuas mãos nos meus seios, das minhas pernas a tua espera. Mentias ao dizer que não sentia mais nada por mim. E continuas a mentir ao sustentar isso, só não esqueças: a mentira contada mil vezes, torna-se verdade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

para não pensar em ti



Filme: Carne Tremula
Música: Ojalá Pudiera Borrarte – Maná


Quando tudo acaba o que fazemos com o desejo que nos salta a pele? Aquele desejo que num toque quase nos desfazemos em milhões de partículas. Quando acaba como fazemos com a amizade, a amizade forçada, a amizade necessária. Por breves momentos chego a pensar que sou tua amiga só para manter-te mais tempo ao meu lado. Para que assim eu ainda mire teus olhos verdes, e repare em todos aqueles detalhes que julguei comporem um dos seres mais lindos que já vi. Mantemos essa amizade, e uma distância remediada, tu não podes ficar muito tempo ao meu lado, e quando vemos uma foto nossa (juntos) tua bochecha fica rubra e teus olhares perdem-se numa volta ao passado. O que fazemos com o desejo que nos restou? A pele, a língua, as mãos perdidas. Restou-se também uma intimidade estúpida, quando nos vemos posso falar do teu cabelo comprido demais, ou da barba que fizeste, e eu reprovei. Julgamos sermos auto-suficientes de nós mesmos, mas mal podemos nos olhar por muito tempo. Ainda resta uma vergonha da última briga, um rancor pela tua nova namorada, resto-nos um ciúme, tu não admites ver-me com outro. E assim estamos moldando uma amizade doentia, onde nem tu e nem eu podemos nos sentir livres. Desespero-me com o desejo que ainda nos sobrou, e ainda enxergo um afeto entre nós indigno de ser descartado, é quase um arrependimento de termo-nos deixado. Como se ainda sentíssemos que tomamos a decisão errada, e devíamos estar juntos, não tu com a branquinha e eu tão sozinha. Desespero-me também com teus olhos grandes, que sempre me roubam a vergonha, e vejo-me desmanchando a sua frente, como seu tu enxergasse-me nua. Mas somos amigos, e amigos não devem se desejar assim, então como dois cães presos, calamo-nos, sufocamos, estrangulamos o desejo, porque é isso que fazemos com o desejo que nos restou, o matamos devagar, esfolando num asfalto quente, ou afogando covardemente numa saudade enlouquecedora.

sábado, 25 de outubro de 2008

... os meus lábios, eles não beijam ...



Filme: Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street
Música: For Reasons Unknown – The Killers

O que compunha Nosso Amor era a simultaneidade de pensamentos e atos. Outro dia sentada num bar dei chances a um qualquer para que conversasses comigo, então lembrei-me de como éramos juntos, a dupla. E um sorriso maligno me saltou os lábios, um sorriso frio e cruel, para dentro. Porque não eras tu que estavas lá. Tu te lembras? Quando juntos ríamos dos outros e suas fraquezas sentimentais, jurando a nós mesmos jamais passar por isto. Ou quando deparávamos com as declarações pitorescas e achávamos insuficientes para o que julgávamos ser o Nosso Amor. Gozávamos as fraquezas súbitas de tantos outros e isso fazia nos sentir mais fortes e melhores. Incapazes de serem atingidos pelas imperfeições dos relacionamentos. Não eras tu que estavas lá. E eu a mirar a passagem do tempo, escorrendo pelo ralo do banheiro fétido do bar, com o olhar perdido. Quando dei conta da performance daquele qualquer, o sorriso maligno engolido, deixou a boca seca e meu silêncio mortal a olhá-lo com desdém. Quanta falta fazes-me, a divisão de nossa maldade que nos saltava a pele e os olhos e por breves momentos éramos melhores que os outros.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

preto e branco, do vento e da chuva



Música: Seek Up – Dave Matthews Band

Realizei-me no que considero ser os elementos que me completam. Entreguei-me aos deleites da tempestade que me envolvia a pele, os cabelos, a roupa. O vento arredio me fazia ter a sensação de voar. Hoje estive entregue ao vento e a chuva, e o preto da noite me abraçou como uma mãe que acolhia uma filha desamparada, enquanto o branco dos raios me iluminava a face e ali se escapava um sorriso. Eu sorri. Gargalhei, deitei sobre a grama molhada. Realizei-me. Deixei escapulir de mim a vontade de molhar-me no temporal que assusta, mas ao mesmo tempo fascina. Hoje compreendi porque desde pequena eu parava frente a janela em dias de chuva, era Deus que havia me seduzido com a água vinda dos céus.

eu te vejo sumir por aí...



Filme: Malèna
Música: Vitrines – Chico Buarque



É quase um silêncio ensurdecedor, onde o aparelho depositado na minha cômoda não emite o som que desejo. Tu de fato não me telefonas. Arrastam-se as tardes deste outubro, onde leio livros como se o pudesse encontrar dentre as páginas, e o calor que invade meu corpo que grita e geme de saudades, só é aliviado num banho demorado. Esse silêncio ensurdecedor, onde quase posso ouvir tuas risadas que completavam as frases dá-me a sensação de abandono. Tu de fato não me telefonas. Cansei de mirar o telemóvel, nem uma mensagem, certo que o deixei no perfil mudo, assim se tu não ligares eu não saberei. Tu não falas nada. Esse silêncio ensurdecedor dominou todos os cômodos da casa, e nem o cão do vizinho latindo desesperadamente quebra a barreira sonora que envolveu este que já foi o teu lar. E eu a hastear a bandeira de meu sofrer na varanda, caminho de um lado ao outro, com a cara pintada e mini-saia. Saltos finos e um cigarro que mais queima do que é tragado, decote desprovido de vergonha. Eu que treino a voz rouca e o biquinho de queixume, eu de vontades escondidas e minha pele esperando a tua língua. Mas tu não ligas. Enquanto cheiro a velha blusa que esqueceste aos pés da cama, o silêncio ensurdecedor que me impede de ouvir qualquer outra coisa vai tomando cada vez mais espaço, levando-me a escuridão, embalando-me no que julgo ser o sono dos desesperados, das loucas amantes-mal-amadas.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

seria você*



Filme: Into the Wild
Música: Guaranteed – Eddie Vedder


Dela não se espera a atitude comum, as decisões tomadas com cautela ou muita paciência. Dela não se pode pedir a compreensão, a atenção, ou até mesmo sentimentos duradouros. Dela se escuta a voz alta ecoando pelo corredor, uma gargalhada bem dada, taças e mais taças de vinho. Dela se espera a sinceridade sempre, a falta de vergonha na cara, a coragem. Dela se escutam boas coisas, indica bons filmes, boas músicas. Dela se espera uma visita rápida, uma conversa ligeira, nunca um tempo demasiado longo. Ela gosta da solidão, e preserva seu individualismo. Dela recebemos conselhos, lhe oferecemos ajuda, dela vem o silêncio, até mais vezes que a palavra. São dela os longos discursos libertários. Dela vem a luta pela independência feminina, pela independência do amor, pela igualdade das raças, por uma nova sociedade. Dela que escorre lágrimas assistindo ao noticiário da TV, e dela sai um juramento que tentará fazer as coisas mudarem. Dela se espera as manhãs de ressacas, a falta de compromisso, acordar depois das 9:00, trabalhar como escritora, encher as estantes de livros, dois gatos. Dela não se espera tristeza por muito tempo, duas semanas talvez. Dela aguardamos a volta da viajem, e mais histórias para contar. Dela não se espera a atitude comum, pois ela foi feita para a conhecermos em momentos breves, ela é livre e não cabe a nós tentarmos prendê-la na nossa gaiola, e se ela parte para suas jornadas interiores a respeitamos, porque a revolucionária está dentro de cada um de nós, basta a deixarmos falar.
* post dedicado as inúmeras garotas que nos orgulham por serem diferentes, e não se envergonharem disto.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

passa



Filme: Kill Bill: Vol. 2
Música: Tudo Passa – Marcelo Camelo


Hoje resolvi encará-lo de frente. Olhar-te olhos nos olhos, com a coragem de fêmea que ainda me resta. Resolvi desafiar-te, mostrar-te que não temo tua presença e muito menos me enfraqueço perante tua voz. Resolvi juntar uma certa força, força de permanecer sorrindo, de ainda conseguir dançar. Força para desprezá-lo, ignorá-lo, para que tu entendas que não exerce mais poder algum sobre mim. Hoje resolvi encará-lo, escolhi uma bela roupa, pintei-me, mudei o corte de cabelo. Usei verniz vermelho nas unhas e permiti-me a falar mais que o normal. Ao encará-lo percebo que minha antiga posição medieva, de mulher submissa, calada, tímida, já não combina com meus projetos, e que negar-me a chance de ser feliz por medo de encontrá-lo era um retrocesso as conquistas feministas do século XX. Por isso resolvi encará-lo de frente, para que tu macho infiel e atrasado, assistisse a ira de uma fêmea que para além de lutar pela sua sobrevivência, luta em nome do amor próprio.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

que não demora para essa dor sangrar


Filme: We Don't Live Here Anymore
Música: A outra – Los Hermanos


Se tu abandonaste-me não o culpo, pois sei que não sabes o que fazes. Tu jamais deixar-me-ia em plena consciência, pois vivia a afirmar a minha importância na tua vida e era nítido que tu estavas mudando para o nosso bem. Mas tinha aquela branquinha, dos quadris mais largos que os meus. Bem meu oposto, ela que descaradamente tentava te roubar de mim. Frente aos nossos amigos, frente aos teus pais. Ela que nunca possuiu escrúpulos, jogava-se para teus braços e tu cordialmente sempre a amparava. Eu sei, era ela que o convencia a deixar-me nas noites de sextas, onde dizias que o plantão te exigiria mais tempo fora de casa. E era ela também que te ensinou a mentir, para que eu não desconfiasse dos perfumes que te impregnavam as camisas. Ela dos cabelos loiros oxigenados, raízes escuras e unhas compridas. Ela de roupas vulgares e balanços no caminhar, de saias curtas e risadas escancaradas. Eu sei, foi ela quem o enfeitiçou e tu não sabias o que estavas fazendo. Não o culpo se ela o viciou com o sexo quente e exótico, e o obrigava a um gozo que a força te impunha. Mas foi ela, era certo que não nos encontrávamos mais, eu esparramada na cama e tu jogado sobre o sofá. Que o diálogo havia ficado de lado, como os carinhos e as piadas que fazíamos um ao outro. Certo que tu passavas o dia no trabalho, a noite no computador, os sábados no ginásio, os domingo no futebol, e eu entendia e acreditava que aproveitávamos uma certa liberdade. Mas era ela quem te afastava do lar, que te impedia de retornar para meus braços e a cama que escolhemos juntos, ela que fazia teu coração disparar por outra pessoa que não eu. Era ela quem fazia feitiços e macumbas para manter-te ao teu lado, e te banhava nas ervas e me enchia de estacas num vudu. Era ela que o impedia de ver a dor que causava em meu corpo, o desespero nas minhas noites de tanto chorar. E eu que nunca acreditei em mandingas, apostei sempre em meus estudos e não na imaginação, era da razão, era da filosofia humana social e histórica. Eu sei que não tens culpa de ver-te enfeitiçado pela branquinha, pois eu sei, é ela que com tuas rezas o mantêm preso e tu não sabe o que fazes. E eu só faço esperar que voltes um dia.

sábado, 18 de outubro de 2008

e sempre tenho que esperar paciente



Filme: Amores Perros
Música: Labios Compartidos - Maná


Ainda estou sentada frente ao telefone esperando a ligação surpresa que tu juraste um dia fazer. Na soleira da porta da sala para cozinha, a mirar o aparelho branco que não emite som algum. Esforçando-me para não roer as unhas, com o coração aflito e a cabeça cheia de possibilidades de que possa me procurar. Estou sentada frente ao telefone, desejando que tenhas a coragem que eu não tive. Que sejas forte e não tema ouvir minha voz. Tu podes ligar só para propor uma conversa sem segundas intenções ou jurar-me o amor que nunca ouvi ser proclamado pela tua boca. Tu bem que podias ligar só para dar um oi, saber se a vida vai bem. Ainda estou sentada frente ao telefone, na soleira da porta, agora olhando as paredes verdes, pensando que se acaso me ligasses pediria a sua opinião para a cor nova delas. Tentado imaginar o que fazes uma hora dessas que não me ligas. Ainda espero a ligação que juraste fazer para surpreender-me, e ansiosa treino minha fala, para evitar a gagueira do nervosismo, digo o alô diversas vezes, até aceitar algum que o convença que não estava esperando tu ligar-me. Estou sentada frente ao telefone esperando a ligação, como uma pequena na ânsia da vinda do melhor presente do ano. Ainda estou sentada frente ao telefone imaginando o que tu me dirias num pedido de desculpas, enquanto eu chorando diria que o esperei todos esses dias e que o perdoaria mil vezes se preciso, só para ter a tua companhia ao meu lado e dormir, e acordar, e morrer de rir ao lado teu. Ainda estou sentada frente ao telefone esperando a ligação surpresa que tu juraste um dia fazer, sentada como deixaste-me e eu covardemente aceitei.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

river



Filme: 21 Grams
Música: Fin - Momo

É certo que depois das grandes tempestades leva-se um tempo para que as coisas voltem ao normal. Aqui dentro está tudo muito destruído e estraçalhado, é meu peito pequeno tentando recompor-se. São pontes caídas, telhados arrancados com o vendaval, e mesmo chegando as inúmeras ajudas de pessoas que se compadecem do meu mal, custo a reergue-me. Leva um tempo até as coisas voltarem aos seus lugares de origem. É claro que as estruturas daqui andavam meio abaladas, madeiras podres e aterramentos malfeitos. Já observava uma rachadura ou outra nas paredes, uma falha, um abalamento. Via-se flutuando um ou outro desejo, esbarrando nos diques tortos, tão precários. Ainda hei de reergue-me, mas o difícil é encarar esses destroços, os mil pedacinhos desfeitos, a louça, a escrita, as fotografias, tudo encharcado – não sei se da chuva, ou das lágrimas – esse todo partido em mil pedaços perde-se na correnteza do rio que desce morro a baixo. Como naquela imagem budista que diz que a vida é como um rio: quando passa nunca se repete, e nada fica no lugar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

outro retrato




Filme: All the Real Girls
Música: Retrato em branco e preto - Tom Jobim e Chico Buarque (Interpretação de Elis Regina)


Olha o retrato. Lá estamos os dois muito juntos, o retrato tirado no momento em que tu fazias-me rir feito tola das tuas piadas sem graça, foi idéia tua tirar um retrato de um momento que ambos sabiam que não se repetiria jamais. Tu escolheste a pose, fizeste o enquadramento e, sobretudo convenceu-me a tirar um retrato contigo, no momento em que ainda nossos corações faziam aspirações e tínhamos planos para os finais de semana. Olha bem aquele retrato, os dois rindo-se de uma alegria estranha, que havia sido forjada com muito cuidado, pelo menos da minha parte. O retrato que tu querias ter para que neste futuro breve pudesses recordar da cor dos meus olhos castanhos, fáceis de esquecer. Era para que tu lembrasses o desenho do meu sorriso, aquele detalhe do canto dos lábios que dizias que deixava meu sorriso maior, tu irás recordá-lo quando bem entenderes. Tu podes guardar este retrato, não me importo de que o tenha em teus arquivos. Tu deves tê-lo, se quiseres deixo que leve também o porta-retrato de moldura em vidro que achaste bonito, podes pendurá-lo numa parede do teu quarto ou jogar numa gaveta das mais fundas. Quero que olhes este retrato, onde estamos os dois num enquadramento romântico, e tua mão apertava muito a minha. Fique com ele já que não tens mais direito sobre minha mão gelada segurando a tua e meus abraços longos de saudades. Podes ficar com todo o fundo negro dele, a escuridão que não demos conta que nos tomava por dentro. Já eu, dei um jeito de esconder tuas coisas que ainda ficavam aqui, outros retratos menos comoventes, este te entrego. Afinal, foste tu que o tiraste. Só não me peça para fazer o mesmo, guardar-te por aqui em pequenos fragmentos, de ti não quero nada, muito menos uma imagem onde nossa felicidade parecia real e no momento em que resolveste partir, tornou-se a maior das mentiras.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

amor como este não há



Filme: The Bridges of Madison County
Música: Por toda a minha vida - Vinicius de Moraes e Tom Jobim (Interpretação de Elis Regina)


Gosto mesmo é de subir e descer a hierarquia de meus amores. Recordá-los, vivê-los em ínfimas histórias, recriá-los com a cara e a boca que eu quiser. Gosto de dar mais importância a uns do que a outros. Não me culpo por amar mais um que o outro. Nem me julgo puta por deitar-me com tantos, amei, de diversas formas eu amei. Se para uns foi mais fácil levar-me para cama, para outros fui tão difícil quanto uma virgem. Se uns me imploraram noites a mais, outros nunca me telefonaram no dia seguinte. Se foi bom para mim? Foi. E para tu? Mas o que gosto mesmo é de subir essa hierarquia, por alguns derramo lágrimas sentidas. Sinto saudades e quase ligo pedindo uma chance. Já de outros caçôo, dou risadas até não poder mais. Ridicularizo teus atos e pergunto-me como pude amá-los. Gosto mesmo é de subir e descer a hierarquia de meus amores. Faço isso com freqüência, para que eu me sinta quista e desejada, até o próximo aparecer em minha vida. Só não sei como ainda não pude encaixá-lo nesta hierarquia. Já dei-te importância demais, porém vejo que nem me és tão importante. Já tentei recriá-lo, revivê-lo, e só o que faço é recordá-lo. Tu estás para além de uma hierarquia, moras num patamar tão alto que minhas escadas não te alcançam. O amor que senti por ti está na categoria de sublime, és semideus. Hércules que venceu meus doze trabalhos. Filho de Zeus és semideus. Tu que não se enquadras em nada, gosto de todos meus desamores, menos de ti. Não gosto de saber que tu estás para além de meus sonhos, saber que está cá dentro, impregnado no meu ser. Quando subo e desço a hierarquia de meus amores, divirto-me, até recordar-me que tu ali não estás, então por pensar em ti, todos os outros desaparecem.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

terça-feira, 7 de outubro de 2008

porque hoje eu vou embora



Filme: À Bout de Souffle
Música: Estrondo – 3namassa (Interpretação de Geanine)

Não sei bem por que me atrevi a beijar-te, ou mais que isso, a permitir que me tivesses como tua. Não sei. Não encontro em mim, e muito menos em ti as respostas das perguntas que nos fizemos todas as vezes que nos encontramos. Era sempre esse silêncio, um silêncio frio e mortal, um silêncio que ultrapassava nossos corpos e se instalava entre nós, impossibilitando que falássemos a verdade um ao outro. Não sei bem porque deixei que me enganasse, dizendo-me uma tolice ou outra qualquer e eu fingindo que caía e tu fingias que estavas feliz. Não sei por que me atrevi a olhar-te com outros olhos, e deixar que me convencesse que contigo estaria bem – nunca estive – e partíssemos para longe, e eu envolvida com tua história deixei-me levar. Necessitava acordar ao teu lado, dormir contigo uma noite mais. Deixar que tu te esbaldasses a noite inteira, brincasse com meu nome e fizéssemos caretas frente ao espelho. Necessitava de teu corpo junto ao meu, dividindo a cama de solteiro, e teus pés me aquecendo. Não sei por que permiti que chegássemos tão longe, a ponto de trair-te e tu perdoar-mês. Para que ao fim de tudo, eu só constatasse que jamais fui apaixonada por ti.


"Brinquei
com tua alma e rasguei
baby teu corpo eu mastiguei..."

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

beijos urgentes



Filme: Spider-Man
Música: He Can Only Hold Her – Amy Winehouse


Por um momento pensei: “nada disso está acontecendo”. Mas eram tuas mãos sim que tocavam-me, de repente meu corpo que tremia (de prazer) acalmou-se com teu toque, com teu beijo no meu pescoço, com tua língua na minha pele. Restou apenas o arrepio que me subiu a espinha e terminou num suspiro longo na sua boca. Para mim, nada disso poderia estar acontecendo, até deparar-me com teus olhos grandes nervosos a me devorarem, era sim teu corpo que eu via sobre o meu, era a tua pele suada que tocava a minha. E fechando meus olhos, permiti que me tomasse como tua, porque nada mais faço para além de desejar-te, dia e noite. Mesmo eu pensando que nada daquilo poderia estar acontecendo, eu fingi que acreditava e tu levaste-me ao paraíso.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

acho que estou presa a você



Filme: If Only
Música: My Sweet Song – Toby Lightman



Habituei-me ao que tens me oferecido. Uma conversa rápida ao telefone, um encontro casual durante a semana para um rápido café. Um almoço rápido de sábado, uma tarde rápida de domingo. Habituei-me a viver esses pequenos momentos, os minutos de conversa via internet, que graças aos deuses ainda me possibilitam um tempo contigo. A verdade é que já me habituei. Habituei-me a tua falta de atenção com meu cabelo, as roupas que nunca notas, a lingerie que te comprei com carinho. Habituei-me ao descaso com meus vinhos e as seções de cinema que nunca aconteceram. Já adivinho as desculpas que irás dar-me, sei-as de cor. E o mais estranho é que mesmo me zangando, concordo e calo-me. Vou para a cama e durmo, para que no momento seguinte quando nos falemos eu tenha esquecido que me aborreci. Isso tudo é porque me habituei, nem fazes muita questão de me ouvir, vou publicar um livro e tu nem sabes. Fui ao médico, não ando bem, tu não sabes. Emagreci dois quilos, mudei o verniz das unhas, troquei o meu perfume e tu nem notas. Habituei-me ao silêncio do quarto, e quando tu chegas às vezes estranho a tua voz. Habituei-me com a disposição dos móveis como eu quero, e teu rosto nos porta-retratos, vejo teu rosto mais vezes nas fotografias do que pessoalmente. Te faltas tempo, eu não julgo, é teu trabalho, teus compromissos, teus amigos, tua vida. E eu não me atrevo a pedir-te mais do que ofereces, é medo de ficar sozinha, é medo de que me deixes. Por isso habituei-me as migalhas de amor que tu, com muito pesar, tem destinado a mim.

domingo, 28 de setembro de 2008

enquanto dura o encontro...



Filme: The Good German
Música: Body and Soul – Billie Holiday


Já escurece e dou um jeito de entrar corredor adentro para que não me notes. Com o passo apressado como uma pequena, quase corro sem desviar meu olhar do chão. Subo as escadas numa pressa sem explicação, não cumprimento os chegados que passam ao meu lado, faço de tudo para não topar com teus olhos. Na sala de espera dou as costas para a porta de entrada, caso entre não verá meu rosto. É então que deparo-me com tua figura sentada no sofá. Já respiro ofegante, mas não ouso cumprimentar-te, assim entregar-me-ia e tu verias em meus olhos o pranto guardado. Mas tu continuas sentado ali, e ouço o folhear da revista na tua mão. Um minuto. Finjo distrair-me com o mural e novas notícias, passeio de um lado para o outro. Desfilo a sua frente. Dois minutos que passam. Estás mais belo que o normal, tua pele clara realçada pela esmeralda de um verde que julgo ser de teus olhos. Olhos que devem se divertir vendo-me ali, rindo-se de mim. Três minutos ou quatro. Foge-me um pouco dos sentidos, e na verdade viajo a um país de inverno, onde aqueço-me frente a uma lareira e imagino tu a fazer-me festas. Cinco minutos. Tu levantas do sofá, aproxima-se e num toque único chama-me para um abraço fraternal, abraço de amigo-irmão. Diz que há tempos não me via, e faz alguma questão de mostrar-me um carinho meio forçado. Seis minutos se passando, eu não queria que me abraçasses como quem abraça o velho amigo, queria ver tua pele se arrepiando ao sentir meu cheiro, ofendida, calo-me e finjo um sorriso cordial. O sete minutos que se passam, e penso no meu íntimo que tu estás sendo hipócrita, quem pensas que é? Para tratar-me assim com tanta indiferença a ponto de ser simpático. Quem? Achas que minha presença é tão natural e fazes congratulações ao encontro inesperado nesta sala de espera? Já são oito minutos de tortura e de ti não quero simpatia. Quero-te aflito com minha presença. Sufocado com o mesmo ar que estamos respirando. Quero ver em teus olhos um desespero disfarçado, uma vontade em seus lábios de beijar-me. Nove ou dez minutos, solta um suspiro de nostalgia e até noto que reconheces meu perfume, do tempo em que tu beijavas meu pescoço e me lambia a pele. Onze minutos e tu demonstra satisfação em me ver. O que não quero é satisfação em ver-me, por favor, sem perturbação de nada vale os encontros. Passado os doze minutos, desisto da espera e digo que preciso ir. Tu que não se atreva a me seguir, fica a olhar-me pelo vão da porta a acenar-me um "até logo". Faz de conta que estende a mão para um "fica mais um pouco", ou até mesmo tenta conter um pranto dizendo que sentirá saudades. Não fazes isso? Nem um "posso te ligar um dia desses"? Um gaguejar pedindo desculpas. Nada. Não dizes nem que está louco para ver-me numa outra ocasião, muito menos abaixa a cabeça disfarçando a tristeza. Não fazes nada disso? Que pena.

sábado, 27 de setembro de 2008

para ti

Filme: Joyeux Noël
Música: Fascinação - (E.D.Marchetti / M.de Feraudy / versão Armando Louzada (Interpretação de Elis Regina)

Dar-te-ei músicas. Cantarei com meu contralto as notas de uma premissa, em dó maior direi o quanto estou feliz. E em ré, desabo perante teu colo. Numa clave de sol, delineio a partitura do que julgo ser a nossa felicidade. Dar-te-ei músicas e dançarei as tuas costas, rodopiarei pela sala e terminarei estirada sobre o sofá, para que ames, para que ames... Em si bemol entregar-me-ei, e a afinação da tua risada há de deixar-me mais tranqüila, e enquanto isso acompanharei os batimentos do teu coração como uma seqüência rítmica, tum tum tum tum...
Dar-te-ei músicas, músicas diferentes. Oferecer-te-ei o descompasso do meu coração, como prova de que tiras-me de um estado normal, e para ti dançarei, dançarei até o sol raiar e nossos corpos estiverem cansados, beijar-te-ei a boca com doçura, como quem degusta teus lábios e morderei o lóbulo da tua orelha, para que assim durmamos, ouvindo a música que eu te dei.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

um encanto



Filme: Things We Lost in the Fire
Música: Strange and Beatiful - Aqualung



De ti não espero promessa alguma. E nem faço planos para o dia seguinte. De ti não desejo mais do que o momento que vivemos o presente único e estável. Não cobro-me por gostar da tua simplicidade, e nem sinto-me atormentada por ver minha vergonha se desfazer nas suas mãos. De ti não quero palavras levianas, a mesmice de tantos outros relacionamentos. Não espero que digas que estás apaixonado e que queres passar a vida ao meu lado. De ti não espero nada disso. De ti quero apenas a verdade, a sinceridade estampada no teu olhar, tuas risadas faceiras. De ti quero alguns segredos confessados ao ouvido, um olhar discreto dentre os amigos. O carinho não explícito. É só o que quero de ti. Não quero promessas de um futuro bom, e nem que me maldiga o passado. Quero apenas sentir que aproveita as horas ao meu lado, como momentos únicos prestes a acabar. De ti não espero promessa alguma, felizmente não espero. De ti quero apenas o que tens me proporcionado a alegria duradoura, o conforto do teu abraço. De ti quero apenas teus beijos quentes, teus pés juntos aos meus. Tua blusa numa noite fria, quero que mexa no meu cabelo. De ti quero apenas o que me é de direito, a felicidade não programada. Quero ouvir mais vezes minhas risadas serem soltas com espontaneidade, porque de ti, espero apenas essa capacidade de fazer-me bem, fazer-me rir cada vez mais.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

não seja a vida sempre assim



Filme: Inesquecível
Música: Modinha – Vinicius de Moraes e Tom Jobim (Interpretação de Elis Regina)


Acreditamos que algumas pessoas não são para nós. Por mais que nos esforcemos para conquistá-los, por mais engraçados e divertidos que possamos ser isso não nos torna suficientes para sermos amados. Insistimos, lutamos, persistimos numa história que está fadada a terminar mal. Mas ainda sim, queremos provar para algo dentro da nossa razão que diz o contrário. Queremos nos sentir dignos de amar e receber amor. Queremos nos olhar no espelho e ter a sensação de ter tentado o quanto pôde e ao fim ter alcançado o coração de quem tanto amamos. Mas agora, agora acreditamos que algumas pessoas não são realmente para nós. Por um motivo banal esse alguém já não acredita nas nossas promessas, ou até mesmo sem motivo, não consegue nos amar. Olha-nos com piedade, estende uma mão (típica) amiga, mas não é capaz de nos olhar com os olhos de um homem ou de uma mulher. Não sente o mesmo desejo e nem faz planos para viver ao nosso lado. É assim que passamos a acreditar que algumas pessoas não são para nós, muitas vezes por serem extremamente belas, outras por serem extremamente inteligentes. Na maioria das vezes é uma incompatibilidade de gênios, alguém de humanas com alguém de biológicas. Ou exatas com comunicação. É quase como óleo e água. Heterogêneos. Mesmo sendo legal no começo, as diferenças nos possibilitando tantos horizontes, com o passar do tempo é quase impossível manter uma relação sadia, sem que haja pelo menos três discussões ao dia. Logo, acreditamos que algumas pessoas não são mesmo para nós. Mas o mais curioso é que mesmo constatando isso desde o início, ainda deixamo-nos apaixonar, só para viver mais uma vez todo aquele reboliço da emoção.


"Não, não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão
Que é só desilusão
Não, não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim
Poesia em mim
Vai, triste canção, sai do meu peito
E semeia emoção
Que chora dentro do meu coração"

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

uma mente sem lembranças



Filme: Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Música: Rewind – Paolo Nutini


De tudo o que mais quero é não somente esquecê-lo, mas dar um jeito de apagar-te de minha memória. Que é para eu não recorrer a essas ínfimas histórias de amor que vivemos na rapidez de um outono. Simplesmente passar pela vida, e não te viver. Manter aquela educação remediada do “boa noite”, e só. Não devia ter me atrevido a beijar-te a boca com tanta vontade, ou fazer amor contigo feito uma cadela no cio, despir-te rápido na ânsia de que podias partir logo. Não devia ter corrido tantas vezes ao teu encontro, sair mais cedo do trabalho, pegar um ônibus lotado só para impressionar-te com a minha pontualidade. Queria dar um jeito de abandonar-te numa gaveta trancada, na qual estariam nossas fotografias e o resto de ti que deixou em minha casa. Quisera eu, perder as chaves da gaveta que o guardaria, para eu não ter que lembrar-me que um dia, por apenas um rápido sôfrego do tempo fui feliz. De tudo que sempre quis, esquecê-lo seria o mais útil, o mais certo, o mais justo. Porque mesmo tu não me amando mais, mesmo tu desprezando-me (e fazes isso tão bem), ainda recorro-te como uma pequena, que volta aos prantos para o colo da mãe depois de uma queda. Há de ser assim para sempre, eu voltar correndo para nosso quarto, cheirar tantas vezes o resto de perfume no frasco, só para sentir-me mais segura após mais uma desilusão amorosa, aquelas em que entrego-me de corpo e alma para o novo amante na esperança de conseguir esquecer-te. Porque de tudo o que mais quero, esquecê-lo seria pouco, eu teria mesmo era de apagar tua imagem da minha vida.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008



Filme: The Dark Knight

Tudo que é normal tem me soado estranho.
E no estranho tenho me refugiado.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

passavas



Filme: Deja Vu
Música: A Movie Script Ending – Death Cab for Cutie

E eras tu que passavas à minha frente. Eu, dentro do carro mal podia mexer meus olhos para tua direção. Eras tu que estavas passando, com o mesmo andar. Meio cabisbaixo, meio tímido, típico do teu caminhar. Eu, estacionada na mesma vaga fácil de manobrar, tocando no som o minimalismo de Glass, enquanto a chuva, muito fina, escorria pela janela. E tu passavas à minha frente. Passavas como quem vai sem pretensão alguma de voltar. Tu ias sem ao menos olhar para trás. Tu estavas de partida definitiva e eu pensei que chegando ali a tempo, poderia me despedir. Engano meu, já não havia mais tempo para despedidas. E tu estavas passando à minha frente, quando um grito mudo saiu da minha garganta. Era teu nome que eu chamava, desesperada eu chamava, sem ao menos emitir um ruído sequer. E eras tu que passavas, numa véspera de final de semana, tu partias para nunca mais voltar. Eu desejando que olhasses para mim, derramei uma lágrima sentida. E tu passavas à minha frente, fingindo não me conhecer, fingindo não olhar. Eras tu que passavas, de mãos dadas com outra, enquanto eu por mais uma vez me voltava à solidão.

um desatino, num descaminho.


Filme: Saraband
Música: Satyagraha – Philip Glass

Bateu-me um desespero hoje, um destempero. Um desgosto da vida, das últimas semanas. Bateu-me uma saudade e completei-me de um vazio tão espaçoso que mal conseguia respirar. Era um destempero, uma falta de vontade de rir e cantar. Bateu-me um desconforto. Um descobrir que havia me enganado. Bateu-me hoje um desconsolo, um descompasso no meu coração. Meu coração bateu errado hoje. Bateu-me um descaso com meu bem estar, descansar de tanto sofrer. Bateu-me hoje um despedir da vida ingrata, um desencarnar para depois viver. Um despir de minhas vontades. Bateu-me um deslocar-me da cidade, para encontrar-te na estrada. Bateu-me hoje um desvelo. Um desconcerto. Bateu-me um desespero hoje, um destempero e nada mais mudou.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

o que deixei



Filme: Out of África
Música: Don’t Miss School – Alfonso De Vilallonga


Quando partiste deixei de viver. Até que vivia, meio pela metade, sem muita graça. Sem muito riso, sem muita conversa. Vivia no meu aquário, as paredes brancas da sala, que tantas vezes pensei em pintar de vermelho. Vivia na estante de livros empoeirados, os livros nunca mais lidos e tocados, os livros teus, mil deles. Quando partiste deixou por aqui teus móveis, tua coberta e várias roupas. E eu prendi-me a cada detalhe teu, cada gota de suor que derramamos. Prendi-me as nossas longas conversas, as embriagues noite adentro. Quando partiste deixei de viver. Vivia uma vida que não a minha, uma vida tua, repleta de olhos, e caras e bocas tuas. Vivia na cama, com tua fronha azul de listras brancas, com a camiseta preta que dormias. Só de cueca. Sem pijama. As noites sem pijamas, na banheira, com as velas acesas. Vivia em ti, no resto de perfume que deixou no frasco, na blusa cinza na minha gaveta. Quanto partiste largou projetos não concretizados, sonhos não realizados. Não nasceram os 3 filhos e nem tivemos um cachorro correndo pelo jardim. O gato nunca se chamou Cachalote, e nem vimos o filme que ia estrear naquela semana. Quando partiste deixei de viver. Vivia uma vida ao meio, tinhas levado contigo a outra metade. Vivia no silêncio, sem muitas canções, nada para além do Mingus na velha vitrola. Vivia sem muitas bebidas, um Merlot ou outro numa noite fria. Vivia em frente à lareira, olhando o fogo consumir a madeira, como consumia minha dor. Quando partiste, na verdade, eu deixei de viver.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Semana de aniversário do blogue e ando um tanto quando afastada. Peço desculpas. O meio acadêmico tem me tomado tempo.
Mas mesmo o blogue mudando de endereço como ocorreu no ano passado e eu um pouco negligente, venho agradecer a visita de todos. Aos leitores assíduos que me procuram depois para elogiar os textos e aos que aparecem a cada dois meses por aqui, mas que ainda assim manifestam opiniões nos comentários. Sou imensamente grata em saber que os textos tocam os corações de tantos solitários por aí. Mesmo sendo ficcionais, imagino como se identificam com as crônicas tão reais quanto às desilusões amorosas.


Um feliz aniversário ao Vento e Chuva e que ele prospere!

Karine M.

aplacar minha agonia



Filme: Girl With a Pearl Earring
Música: Basta um Dia – Chico Buarque (Interpretação de Mônica Salmaso)

Que Deus perdoe-me pelo pecado. Mas eu não agüentei. Que Deus releve minha fraqueza de reles mortal, o fato de ter te amado. Um amor nascido do engano, da mentira. Que Deus me perdoe por este pecado e todos os outros que cometi em teu nome. A luxúria de ter-te em minha cama, a ira que causou-me ao abandonar-me. A tentação carnal, o desejo quase insano de beijar-te a boca. Que Deus perdoe-me, mas seria impossível resistir-te. Que Deus entenda o meu pânico, e todas as noites que passei sem uma oração, pensando e articulando um modo de ter-te ao meu lado novamente. Que Deus me perdoe pela loucura na qual me afundei, na amargura e desgosto de vida. Pelas tantas vezes que pensei em desencarnar, em partir numa noite escura e fria. Que Deus me perdoe pelos pecados de meu coração desesperado. Este pecado de tantas noites em que eu era entregue a tantos homens na ânsia de esquecer-te. Tantas bebidas e maus tratos a mim mesma. Que Deus me perdoe pela minha falta de coragem, pela agonia de ainda recorrer-te, mesmo tu me desprezando. Que me perdoe pelo adultério, pelas tantas vezes que dizia amar alguém e só pensar em ti. Pelas vezes que em minha cama era um corpo que não o teu ao meu lado, e eu desejava profundamente ver teu rosto quando acordasse. Que Deus me perdoe pela idéia insana e fixa de que só seria feliz ao teu lado. Que Deus me perdoe pela inveja. Pela cobiça. Que Deus tenha piedade da sua pobre filha, tão fraca, perdida na solidão na qual já foi lançada, talvez por penitência. Que Deus perdoe-me pelo pecado mais terrível que pude cometer, perdoe-me por amar-te tanto, amar-te tanto, tanto... tanto... A ponto de morrer.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

nunca meu



Filme: Lolita
Música: Que Emocion – Amara Portuondo

Nada em ti me desagradava. Nem mesmo o modo como falavas. Muito menos a cor dos teus olhos, ou dos teus cabelos. Nada em ti era fora do lugar. Possuías uma combinação de todas as partes de teu corpo, eras-me sempre perfeito. Até mesmo o modo como se vestia me agradava. Os tons de verde, de marrons. Como ajeitavas a jaqueta, a cor dos teus calçados. Não havia nada em ti que não me chamasse atenção, mirava-te de longe e enxergava um conjunto de fragmentos belos, que separados ainda assim me deixava sem fôlego. Sempre gostei de ti como eras, não haveria de mudar absolutamente nada. Sempre bem vestido, bem apessoado, disposto a falar de coisas difíceis e agradar um meio do qual eu jamais faria parte. Tua camisa bem passada, engomada. As calças com pregas destacadas e os calçados muito bem lustrados. Já eu – miúda que sou – o cabelo sem corte, as unhas ruídas da ânsia de encontrar-te. Falando alto, com o all star velho e batido nos pés. Sempre as mesmas camisetas, o jeans sem graça que mal dava forma ao meu corpo sem formas. Eu que sentava ao teu lado e te fala coisas obscenas no ouvido, provocando em ti um prazer que disfarçavas com um sorriso polido no rosto. Tu cheio de poses, muitos amigos e fãs. Muito empertigado que eras correto e discreto até mesmo nos momentos em que não conseguias tirar os olhos de mim. Tu com o título de charmoso, com dezenas de patrícias a seguir teu sangue azul. Eu plebéia sem jeito com as palavras, o ganhava quando deixavas ver em meus olhos a paixão que sufocava o meu coração. Nada em ti me desagradava, gostava da barba feita ou sem fazer. Ou quando fingias que não me via, mantendo assim a tua reputação intacta, longe da minha presença ameaçadora. Gostava da pasta de couro, do relógio importado, dos óculos. Gostava do perfume e da cordialidade com todos. Eu com a bolsa de pano, óculos baratos e desodorante sem perfume, meio estúpida. Tu com o rosto sempre sério, cheio de moral e princípios. Machista. Tinhas um compromisso. Eu um nada, sempre a dar gargalhadas altas, hipócritas, falava demais. Tu achavas curioso, mexia com tua índole e por isso querias me levar pra cama. Nada em ti me desagradava, nem o modo como dizias sem rodeios que de mim não seria nada. Nem quando me olhavas com raiva e quase me batia por te fazer sofrer. Eu sem compromisso, nem bonita era, não me preocupava com teus problemas e te mandaria para o quinto dos infernos se me enchesse. Tu que não tinhas nada que me desagradava mantinhas a postura que eu, louca e desvairada que era, fazia questão de perder. E louca que ainda sou penso às vezes na possibilidade de te encontrar, só para ver se ainda mantêm as mesmas pregas nas calças bem passadas e camisa engomada, enquanto teu sangue azul ferve na antiga vontade de me possuir.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

eu me arrependo mais que admito


Filme: L'Ultimo Bacio
Música: Everything We Had - The Academy Is


Por hora penso: o que faria caso desses-me uma segunda chance?
Primeiro, como uma cadela desvairada uivaria, pularia e depois saciaria meu cio (não necessariamente nessa ordem). Depois deitada sobre teu peito eu contaria como foram difíceis esses tempos todos, como sonhei noites a fio com tua imagem. Como criei inúmeras histórias onde nos encontrávamos na Tunísia, Turquia ou Marrocos. Enquanto estivéssemos no banho, eu o fitaria só com a luz que a vela nos propiciaria, e brincaria com os desenhos que a espuma faria no teu corpo. Depois pegaria a caixa de chocolates meio-amargos, abriria o Merlot e embriagar-me-ia sobre a cama enquanto te ouvia contar por onde teria andado todos estes tempos. Caso desses-me uma segunda chance eu o raptaria, o levaria para uma cidade qualquer muito fria. Onde ficaria trancada contigo por mais de uma semana num quarto, só para matar a saudade (ansiedade) que sentia de ti. Compraria um bom livro de presente, lhe escreveria na capa as promessas de amor que nunca lhe fiz. Caminharíamos de mãos dadas, como sempre sonhei e nos aqueceríamos frente a uma lareira tentando imaginar porque passamos tanto tempo separados. Se por um acaso desses-me uma segunda chance construiria uma história diferente ao seu lado, diria que o amo e seria só tua (como sempre me pediste), não esconderia mais nada de ti, deixaria conhecer a metade de mim que tu nunca te aproximaste, seria uma boa esposa, uma mulher companheira, seria melhor do que fui no passado.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

depois


Filme: Hable con Ella
Música: Depois de ter Você – Adriana Calcanhoto


Ver-te causa-me ainda os mesmos calafrios. E como uma pequena, ainda o encaro com curiosidade – deves ter notado – achei que passado tanto tempo, haveria de olhar-te e sentir-me mais segura. Engano meu. Quando o vejo, sinto o mesmo pânico dos desesperados-amores-mal-amados. Tens algo que faze-me fraquejar, e nem poderia ser tua beleza. Algo que dizes, ou como dizes. O modo como não me olhas nos olhos. Como não fala comigo diretamente. É algo que fica entre meu cumprimento e o sorriso que me lanças. Sorriso de satisfação? De nervosismo? Ou só tentas ser simpático comigo? No entanto não fazes questão alguma de poupar-me o sofrimento, ignoras-me com a mesma formalidade que me és educado. E até falas de outra na minha frente, como se eu tivesse a obrigação de ter superado tua partida. Ver-te causa-me ainda as mesmas sensações de mais de um ano atrás. É o mesmo frio na barriga, é o mesmo bambear de pernas. Gaguejo como se fosse a nossa primeira conversa. Enquanto falas, eu te espio, lembrando-me dos teus trejeitos que me fascinavam tanto e ha muito eu não via – sentia saudades disso – refrescou-me a memória encontrar-te, agora tenho certeza de que seria impossível esquecer-te.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Ninguém nunca disse que seria tão difícil...



Filme: Wicker Park
Música: The Scientist – Coldplay (Interpretação de Danny Lohner)

Contei os dias. Todos. E não houve um único em que eu não tivesse lembrado de ti. E quanto mais o tempo passa, melhor me recordo. Em cada dia que deixei para trás, vivi dentro de meu peito uma minúscula recordação. Hoje, posso descrever cada espaço em seu corpo, e dizer que alguns fios da tua barba ficavam ruivos ao sol. Posso imitar-te, o modo como andas, assim meio desleixado, tens o hábito de jogar muito as pernas a frente do corpo, estica-as. Às vezes tu paras e numa conversa colocas uma das mãos na cintura, como se estivesse muito à vontade na tua roda. Quando ri, teus olhos ficam tão pequenos que de longe parece que chegam a se fechar. Tua risada não é bonita, tua boca é pequena. Falas rápido, com uma entonação na voz só tua, que até hoje custa-me a tirar o hábito de falar como ti. Isso tudo não é nenhum mal, recorro-me a memória que faz a mesma viagem todos os dias, visita aqueles velhos lugares, e é isso tudo que permite-me recuperar cada detalhe teu. Quanto mais o tempo passa melhor te lembro ao invés de esquecer-te. Quanto mais esse tempo todo passou mais me entretive em te criar, em inúmeras formas, encontros, lugares. Cheiros, vontades, idas e voltas. Desencontros, lágrimas de saudades, de alegria. Beijos longos, noites de amor infinitas. Cafés e jantares. Entretive-me em lembrar como tua pele era mais clara que a minha, ou quantas manchinhas tu tinhas nos ombros. Que número calçava, qual era tua blusa favorita. O perfume que não usavas. Apetece-me crer que hoje o conheço bem mais que antes. Saberia como decifrá-lo, até o decifro, só não sei bem por que, visto que muito tempo tem se passado. Hoje pelo menos posso compreender cada simetria do teu rosto, ou porque comprime os olhos quando pensa. Quanto mais o tempo passa, melhor me recordo e de tantas coisas que já recordei talvez um reencontro nosso tenha sido de tudo o mais comovente, e não espero nada mais na minha vida, para além de um dia te reencontrar.

"Come up to meet you,
Tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you,
Tell you I need you..."

quinta-feira, 24 de julho de 2008

sem exageros



Filme: Ultimo Tango a Parigi
Música: Decaríssimo – Ástor Piazzolla


Eu acho que não gosto mais de ti. Verdade. Acho que tudo mudou, até meus sentimentos mudaram. Não vejo um motivo, ou algo em específico que tenha feito as coisas mudarem. Acredito que vários fatores contribuíram para o fato de eu deixar de gostar de ti. Imaginar a possibilidade de te encontrar me causa náuseas, não querendo ser exagerada. Mas entre nós não cabe mais nada. Tentar ser amigável contigo seria mentira demais. Acho realmente que não gosto mais de ti. És bonito demais (o que me irrita), e tanta beleza é enjoativa. Topar com teus olhos grandes é algo extremamente incômodo, pois sempre me sinto meio esmagada por teu olhar. Ouvir essa voz mansa, com os mesmos papos de sempre me saturou. É difícil cair na tua conversa, o conhecendo tão bem. Não há novidades que possa me contar, não há feitos da tua parte que mudem minha opinião. Perdes-te o encanto, perdes-te a graça. Tornou-se tão comum quantos outros que não tiveram importância em minha vida, o que é muito triste - diga-se de passagem - gosto de dar “importâncias” as pessoas que passaram pela minha vida, mas para ti não vejo nenhuma que realmente o valha. Uma pena. Serás esquecido com a mesma rapidez com que me apaixonei por ti. Acho que não gosto mais de ti. E não gostaria de dizer-te isso, mesmo porque basta olhar meus olhos para ver o desprezo que nasce quando o vejo. Não entendas isso como repulsa, ou despeito. Não entenda isso como ingratidão, só acredito que deste-me motivos suficientes para chegar até aqui, eu só não gosto mais de ti.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

pelo-menos-eu-tentei


Filme: Kill Bill: Vol. 1
Música: Bang Bang ( My Baby Shot Me Down) – Nancy Sinatra (Kill Bill 1 soundtrack)


A verdade é que já me recuperei. Mais rápido do que imaginava, mas eis que agora mal recordo teus olhos, por hora deixo até de mencionar teu nome nas conversas. A verdade é que desde o dia em que não mais o senti por aqui, tratei de colocar em prática um velho plano – como se recuperar de mais um caso falido – e veja você, o plano está dando certo. Se chorei, se passei noites sem dormir, se a dor fora física e se sofri, não me importa. Não quero pensar que tenha sido em vão, as músicas, a atenção, a dedicação, a preocupação. Pensar que tudo isso foi em vão, chega a doer, por isso quero pensar o contrário.
Pelo-menos-eu-tentei.
Não me arrependo de nenhum esforço, e até posso dizer mais: não me arrependo de ter pensando tantas vezes que contigo eu seria feliz. Não, eis que cá já estou de pé novamente e se vai bem não me interessa muito saber. Se vai mal, problema é seu. A verdade é que tem perdido a importância em meus dias, e eu já me recuperei.
Pelo-menos-eu-tentei.
A verdade é que já passei tantas vezes pela mesma dor, já visitei tantas vezes as mesmas salas vazias, que agora esse sofrer, essa solidão já não me maltrata mais. Já caminhei tantas vezes pelas mesmas ruas e ouvi tantas vezes a mesma canção, que agora sinto-me preparada para mais uma vez para encarar isso tudo novamente. A verdade é que eu vou bem, não me encolhi frente a dificuldades, não fugi da tua fala mansa e da tua pele macia. Não fugi do papo masculino da conquista e nem preocupei na enrascada que ia entrar.
Pelo-menos-eu-tentei.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

e, nunca mais voltou...



Filme: Reign Over Me
Música: Ela Partiu – Tim Maia


A verdade é que é muita crueldade da tua parte fazer isto comigo. Abandonar-me assim, sem uma palavra ao menos de adeus, uma explicação. Simplesmente partir, fazer tuas malas, pegar teus pertences e ir. Sem olhar para trás, sem uma expressão de carinho, consideração ou até mesmo piedade. É muita crueldade tu entrares em minha vida, a bagunçar, despertar em mim sentimentos que há muito tempo haviam sido adormecidos. Transformar-me em alguém mais alegre, mais falante, fazer de mim tua mulher e preparar-me para te amar. É muita crueldade fazeres isso tudo e depois partir, simplesmente partir. Creio que ninguém tem o direito de fazer isso, de roubares o que havia de mais forte em mim, de tirares todas as esperanças (por mais uma vez) que me faziam respirar. É crueldade demais tu me desprezares, ignorares-me, deixar-me jogada ao frio e relento de minha solidão, justamente agora que havia me habituado a tua presença, a tua risada, me habituado aos teus olhos grandes a me espreitarem, é muita crueldade me abandonares agora que sonho contigo, que tuas mãos conhecem o meu corpo e tua voz me acalma. É maldade sua imaginar que serei forte, pois desta vez serei frágil, porque havia acreditado que me farias feliz, e agora o que me ofereces? O teu silêncio, tua ausência esmagadora, tua partida fatal. Oferece-me as noites frias sozinha, as esperas por telefonemas, oferece-me rugas de tristeza e olhos molhados de dor.

terça-feira, 15 de julho de 2008

rotina



Filme: Je Ne Suis Pas Là Pour Être Aimé
Música: Criminal- Gotan Project


Às vezes bate-me uma vontadezinha tola de falar contigo, então resolvo te ligar. Estendo minha mão sobre o telefone e aí receio. Fico parada com o aparelho na minha mão o olhando, tento imaginar o que te dizer caso me atendas. Se deveria ser simpática ou triste. Se falaria sem parar contando que quase morri de saudades ou manter-me-ia muda do outro lado da linha te ouvindo respirar. Decido que falar contigo me faria muito bem, então disco o seu número, só os primeiros, porque o medo me impede de continuar e receio novamente. Minhas mãos geladas e trêmulas começam a suar, sabe como? Daquele jeito que tu notaste, quando fico nervosa com tua presença. Quase posso ouvir tua voz, e até imagino que ficarias surpreso com uma ligação minha, mas não tenho coragem. Devolvo o telefone à base e culpo-me por ser tão covarde. Tento inventar uma desculpa para falar contigo, as aulas que estão por voltar, tuas coisas que estão na minha casa, aquele filme que vai estrear e tínhamos combinado de ver juntos. São tantas coisas para te falar que me perco novamente no medo de acabar gaguejando ou implorando para que me vejas logo. Assim desisto mais uma vez de falar contigo, abandonando o aparelho sobre o criado mudo e voltando a minha atenção para a leitura, passando mais um dia de tantos outros de tortura que não deixo de pensar em ti.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

um amor a mais



Filme: The Illusionist
Música: Tempo de Amor - Baden Powell e Vinícius De Moraes


Até que menti quando disse que era um dos homens mais belos que eu havia conhecido. Menti muito por poucas vezes eu creio. Mas sinceramente não és uma das coisas mais lindas do mundo.
Sempre tive sorte em cruzar com pessoas belas, e admito que a maioria dos homens que me viram nua eram realmente muito bonitos, pois se é para ver alguém no seu íntimo, que seja alguém extremamente belo.
Pensei que minha vida haveria de ser sempre assim, esse amontoado de acontecimentos interessantes com pessoas interessantes em locais interessantes. Que eu havia de estar desprendida das convenções e medos que assolam o pensamento das mulheres da minha geração (casamento, filhos, uma casa).

Mas não.

Eis que me surge tu, justamente tu que me és tão eu. Um espelho. Alguém que pensa e age como eu, que busca o que eu buscaria. Tu que repetes as coisas velhas e elas me parecem novas. Tão diferente que me soa normal por seres tão parecido comigo. Estás afastado da anormalidade – graças a Deus!
Ter-te é quase como realizar um sonho, aqueles sonhos de consumo onde adquirimos um bom produto. Realizei-me ao teu lado e diria que apaixonar-me por ti seria quase uma imprudência. Conheço-te tão bem, como a mim mesma e sei quais pecados cometeríamos. Porém sei que nos perdoaríamos, porque entre tantas outras coisas, tu és um homem definitivo, o que eu adoraria ser para ti também – definitiva.

domingo, 13 de julho de 2008

hei de te cobrar



Filme: Dogville
Música: Lágrima – Roque Ferreira (Interpretação de Maria Bethânia)


Hei de cobrar com juros e correções monetárias toda a dor que me causaste. Hei de querer que me devolva lágrima por lágrima que já chorei sentida. Tu há de pagar-me um dia todas as noites em claro, todas as noites que o sofrimento que me causava era físico e eu sentia meu corpo todo doer. Tu tens de pagar e eu hei de cobrar o melhor de minha juventude que tu levaste, a esperança que se consumiu nos planos que eu fazia esperando que estivesses ao meu lado. Hei de cobrar com juros toda falta de apetite, os cinco quilos que perdi em uma semana. Quero que me pagues todas as garrafas de vinho me que aqueceram nas noites que tu não vinhas. Tu há de pagar um dia pela falta de carinho, pelo esforço não reconhecido. Tu tens que pagar-me por todo mal que já me causaste, por toda solidão que plantaste em meu peito. Vou cobrar e quero tirar de sua poupança toda a paciência que roubaste de mim. Tirarei de ti todo o bem que podes causar em outra pessoa que não seja eu, e depositarei em seu peito a mesma mágoa que me causaste. Transferirei de teu coração para o meu todo o amor que me negaste. Hei de cobrar com juros e correções monetárias toda a dor que me causaste, assim tu será obrigado a abrir falência pedindo o meu perdão.


“...Cada vez que no meu coração,
morrer uma ilusão, há de me pagar...”

sábado, 12 de julho de 2008

à solidão


Filme: Mi Vida Sin Mi
Música: Never Complain/Final Kiss/I Pray (Mi Vida Sin Mi soundtrack) Alfonso De Vilallonga


Solidão é aquela sensação que tu nunca sentiste, sei disso e tu também sabes. Na tua vida não cabe solidão. Só sente solidão quem merece, e ela é uma pontada no peito que dói fundo. É sentir uma lágrima descer lentamente pela sua face e o vento gelado bater em seu rosto te fazendo estremecer, a solidão é falar por mais de cinco minutos e não ser ouvida, é chorar baixinho na cama enquanto tu dormes ao meu lado, solidão é acordar numa manhã de inverno e tomar um mate sozinha na sala. É caminhar pelas ruas, estar cercada por centenas de pessoas e ver as ruas vazias. Solidão é assistir um filme que gostamos muito e não ter com quem comentar, é descobrir um novo disco e não saber se posso te contar. Solidão é esperar um telefonema que nunca acontece, uma mensagem que nunca chega, uma declaração que nunca será ouvida. Solidão é sentar todas as tardes no mesmo café, reler o livro da Lispector e não adoçar o espresso. Solidão é desfazer-me em lágrimas enquanto leio Florbela Espanca, é ouvir Vinicius de Moraes. É cantar Tom Jobim, é dormir ouvindo Erik Satie. Solidão é passar mais de três horas ao lado de alguém e não conhecê-lo, solidão é sentir um beijo mal dado. Solidão é não receber um abraço de saudades de quem gostamos, é programar uma viajem que não irá acontecer. É fazer planos com a pessoa que está ao seu lado e eles nunca se concretizarem. Solidão é triste, é amarga. Mesmo quando se dá risadas, morre-se por dentro. Mesmo quando finges que tudo vai bem, tu sabes que o sofrer será inevitável, as pessoas solitárias sempre sabem disso. Solidão é não pedir nada, e isso já ser um exagero. Solidão é estar sempre acompanhada de quem tu gostas e não se sentir amada nem por um segundo.

terça-feira, 8 de julho de 2008

"nosso mais que perfeito está desfeito"


Filme: Dom
Música: Pois É – Chico Buarque (Interpretação de Elis Regina)


Há dias assim que me perco nas horas e nas tantas outras coisas que tenho a fazer para além de imaginar você. Passo mais de três horas na fila do centro de línguas, quase termino aquele livro do Fonseca e ouço tantas vezes a mesma música tentando afastar-te de meus pensamentos - será que ele me liga? - O verniz branco das minhas unhas que a Rose manicure me indicou, já está lascado e quase sedo a tentação de roê-las todas novamente. Mesmo perdendo-me nas minhas horas atividades em que corro do conservatório até a biblioteca, numa esquina ou outra é teu rosto que me surge no estranho vai e vem da multidão, ou é tua voz que ouço ao meu lado numa conversa alheia. Mesmo enchendo meu dia de duzentas outras coisas, o cinema, o texto novo, a pausa para o café, um bom artigo, ainda prevalece à idéia fixa de que não o vejo desde a semana passada e que meus dias têm se tornados estranhos sem tua presença. Suspeito que cá já não estás mesmo, e que devo admitir minha falha em não compreender isso antes, mas acontece que me surgem atividades para toda a semana e tenho evitado pensar que você pode estar de partida. É a dança afro que aprender, é o festival de filmes franceses, é o Budapeste do Chico que está comigo. O cd que ainda não ouvi do Tim, e ainda quero me programar para a viagem do final de semana ao litoral, se vou te ver até lá, ou melhor, se vou te ver lá, ainda não sei. Mas ainda assim preciso me programar. Creio que entupir-me de desculpas para não pensar em você não é bom remédio, levando em conta que não deixei de lembrar de você nem por uma hora de meu dia, só evito pensar no fim do qual estamos condenados a viver, e ainda assim o que só faço é esperar tua ligação até o final do dia.

sábado, 5 de julho de 2008

mais sofrer



Filme: Viskningar Och Rop
Música: Deuxieme Gymnopedie – Erik Satie


É uma tristeza pesada que me chega, me tira os movimentos, me impede de pensar muito bem. E sem muito esforço para afastá-la ou até mesmo repeli-la deixo que se aposse do meu peito pequeno, que faça estadia em meu coração. Bem aos pouco como é de seu costume, deixa-me pesada, pesa em minhas costas a dor e a saudade. Assim desmorono-me sobre a cama e não saio de lá em menos de cinco dias, me pesa o ar para respirar, me prende as narinas, me tira a voz, fico tão rouca que afônica é quase pouco para descrever. A seção de tosses e espirros começa, como que para anunciar que uma pneumonia seria certeira. Ou até mesmo um pequeno resfriado, não fosse pelas dores na cabeça contínuas e a febre alta. É a tristeza que chega. Se às três horas da madrugada debato-me na cama de tanto tremer enquanto sonho com tua partida, não é nada mais do que apenas a tristeza que chega. Sinto-lhe o gosto enjoativo, me amarga a boca e se acaso a gastrite me atacasse pela falta de peso, não me importaria em deixar de comer. É de seu jeito fazer assim, revirar cá dentro do peito a saudade, fazer esmiuçar as lembranças e pequenos projetos não concretizados, é assim que ela me faz doer às juntas das mãos, os nervos. Deixa meu pescoço imóvel, é neste momento que a tristeza paralisa-me sobre a cama. Assim que se passam os meus dias de solidão, e com o olhar parado sobre o lustre japonês do quarto, penso na idéia de que tu possas abandonar-me um dia e isso chega até me adoecer.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

cometo pecados

Filme: Before Sunset
Música: Tell Him – Lauryn Hill


Séria e com o peso em meus ombros daquelas palavras que são proferidas, enviadas e lidas, hoje levantei-me da cama com o gosto amargo do arrependimento em minha boca. Quisera eu ter tido a coragem de contar-te meus segredos e medos, aquelas aflições. Ao invés de ter enviado a carta que o maldizes e deixa-me no papel de vítima. Fato é que nem eu e nem tu somos vítimas, ou somos, mas vítimas dos mesmos erros que nos assolam o peito apertado. Levantei-me da cama convicta de que deveria pedir-te perdão e jogar-me aos teus pés pedindo que não, não ouça aquelas palavras que saíram da minha boca com um tom de voz hostil. Quando levantei-me da cama, quase vesti por sobre o velho pijama de cetim azul uma jaqueta cinza muito quente e parti em direção ao teu trabalho. Faria hora lá até que saísses e deixasse-me beijar tua boca e abraçar-te forte. A aflição e a agonia que foram tomando conta da minha manhã impediram que eu tivesse coragem de fazer-te uma declaração de amor, e quando ouvi tua voz pela segunda vez na mesma manhã, notei que cá já não estás. Teu coração já não batia junto do meu. Levantei-me da cama e deves ter notado o desespero em minha voz ao falar contigo, o telefone chamou por mais de cinco vezes e tu nada de atender-me, retorna-me a ligação com aquele teu tom de voz que faze-me sentir uma idiota, por sempre estar desesperada e morta de saudades de ti. Levantei da cama e sequei as lágrimas que escorriam e me molhavam as fronhas do teu travesseiro. Então ajeitei-me, coloquei meus óculos e voltei-me a leitura, esperando que tu ainda dê sinal de vida até o fim do dia.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

quero



Filme: The Purple Rose of Cairo
Música: Tatuagem – Chico Buarque


“Tu deves fazer um pedido”. Enquanto o cílio era preso por teu polegar mais o meu, tu dizias: “faça um pedido.” E contraindo muito minhas pálpebras, fechei meus olhos com força e confesso, desejei imensamente algumas coisas. O primeiro de todos os pedidos era que tu pudesses olhar pra mim com admiração, que tu abaixasses a guarda e permitisse tornar-se um amado meu. O segundo, ou terceiro, ou quarto (enfim, não lembro, foram tantos) era para que tu jamais me esqueças, jamais me esqueça, jamais me esqueça... Ah claro, outro pedido também era para que eu mantivesse essa minha boa forma, a boa saúde, para poder amar-te noite adentro sem me cansar quando a hora chegar. Pedi também para que não me faltasse dinheiro, para estar sempre pronta e bela a tua espera. Mais alta, mais baixa, com decotes ou não, nunca se sabe quando vou te encontrar. Já cansada e tu impaciente com a demora de meus pedidos, fui para o sétimo ou oitavo pedido e pedi com mais força ainda que continuasses a topar contigo pelas esquinas, no nono pedido desejei imensamente que aquela noite não terminasse jamais. Sem qualquer outro objetivo que não o de estar sempre ao teu lado: dormindo, acordando, te encontrando no trabalho, nos estudos... Cantando-te, enganando, amando e odiando. Desejei olhar-te por mais um minuto em silêncio.

não estou pedindo uma segunda chance.



Filme: P. S. I Love You
Música: Same Mistake – James Blunt

Gostaria de despertar numa manhã dessas e dar-me conta de que são teus olhos que me olham. Gostaria de preparar-te o café, de fazer-te rir na cama antes de nos levantarmos. Gostaria muito de um dia pegar na tua mão e levar-te nos lugares mais mágicos que visitei. Como eu gostaria de apagar da nossa memória toda a preocupação, todo o medo. Gostaria muito de guiar-te por caminhos mais brandos, fazer-te feliz, fazer-te sonhar ao meu lado. Gostaria de conhecer teus planos, teus países, teus castelos. Gostaria de viajar ao seu lado por mais de vinte e quatro horas sem um destino certo. Gostaria muito de encontrar-me nos teus olhos e no teu toque. Gostaria de aquecer-me nos teus braços, de saciar-me com teus beijos, de amar-te tanto até enjoar do teu corpo e dormirmos ofegantes. Gostaria de viver a paz que outrora dominava meu coração, a paz e a sensação de segurança que preenchia cada espaço vazio em meu peito. Gostaria de rir mais uma vez na tua companhia e dividir mais um vinho, de falar umas besteiras nem que fosse pela última vez, nem que fosse por uma noite só, nem que fosse apenas na minha imaginação – minha imaginação.

domingo, 29 de junho de 2008

e eu caio.



Filme: Eyes Wide Shut
Música: Day Old Hate – City and Colour


Enganaste-me. Das muitas coisas que sei perdoar, talvez a mentira seja uma das mais difíceis. E sinceramente, desta vez não sei como proceder. Enganaste-me, e juro, doeu como há muito não doía uma pontada em meu peito. Enganaste-me e eu tentei encontrar todos os teus motivos, todos os teus medos - suponho que sinta tanto medo quanto eu - tuas vontades. Enganaste-me e para mim foi um golpe baixo, o sentimento que era bom, era de vidro e se quebrou. Mentis-te, jogas-te com as nossas verdades, manipulastes meus planos, usaste da minha fraqueza - confiar demais - para se aproveitar. Enganaste-me e de todas as coisas que já perdoei talvez a mentira eu não saiba muito bem como perdoar. Enganaste-me e eu queria muito não ter descoberto a verdade, sinceramente, gostaria de ter permanecido na mentira, só para que eu continuasse em paz e feliz por mais um tempo, é que às vezes eu me canso de sofrer, entendes? Enganaste-me e eu ainda não entendi o porquê, não mesmo, pois eu acreditava que honestidade era algo inerente de nós e do nosso começo. Mentis-te e eis que agora vejo-me perdida, e espero realmente que tu saibas um modo de me encontrar, para que assim nós possamos por mais uma vez recomeçar.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Dai-me uma dor que sirva para eu acordar


Filme: Paris, Je T'Aime
Música: Duas Cores - Mombojó


Sabe o que é? É que às vezes me bate um medo. Só isso, um medinho bobo, meio sem nexo, mas é medo apenas. Medinho sem graça esse, que surge no meio da noite quando acordo e não é teu corpo que está ao meu lado. Medinho de que tu saias pela aquela porta e não volte mais, um medinho chato de que um dia olhe pra mim e não esteja mais apaixonado. Medinho tolo de me sentir sozinha novamente, logo agora depois de tanto tempo... E eu que me sinto bem ao lado de alguém. Medo besta esse meu, da solidão já fiz minha companhia, mas tu nos últimos tempos tem mostrado algo bem melhor que ela, vem me mostrado como é bom ter alguém para se partilhar um vinho, um chocolate, uma noite fria. É só um medinho imbecil de que tu possas se decepcionar, ou que imagine de mim algo ruim. Medo de que o esforço que tenho feito tenha sido desperdiçado, de que tu não tenhas enxergado o brilho dos meus olhos quando estou contigo. É só um medinho de que tu não saibas ler nas entrelinhas da minha escrita o quão bem tem me feito. É só um medinho mesmo, e espero que me perdoes por tê-lo sentido.

“...Pelas esquinas que eu andei
Nenhuma delas te encontrar
Mas eu tô sempre por aqui
Quando quiser é só chamar..."


quarta-feira, 25 de junho de 2008

sobre a saudade



Filme: La Môme
Música: La Vie Em Rose – Edith Piaf


O mais estranho é que já sinto saudades. Saudades das promessas que ainda faremos, das conversas longas que teremos, sinto saudades das risadas dadas com alegria ao seu lado, da vontade de tocar-te mais. Saudades da tua voz calma e baixa no meu ouvido, das tuas mãos passeando audaciosas pelo meu corpo. Sinto saudades disso tudo e de muito mais. Saudades dos primeiros olhares distantes, e saudades dos olhares dados de perto, agora tão profundos que quase me tocam a alma. Saudades dos beijos doces, das mordidinhas nos lábios, das mordidas na perna. Sinto saudades do teu cabelo liso entre meus dedos, do teu sorriso maroto e da falta de jeito às vezes com as palavras. São tantas as saudades que nem sei como demonstrá-las aqui. Só sei dizer que sinto saudades, e saudade é tão certo quanto dois e dois são quatro. É fato sinto saudades, e ela surge só do pensamento de deixar-te mais uma noite, e quando partes e fico a mirar-te a saudade só faz crescer e dominar meu coração.

terça-feira, 24 de junho de 2008

tanto tempo, em tão pouco tempo.



Filme: Un Long Dimanche de Fiançailles
Música: Coisa de Doido - FelixBravo

Romperia num instante com todas as noções de tempo que nos foram apresentadas, deixaria de lado as convenções das horas, dos minutos, dos segundos. Quebraria meu relógio em mil pedaços e jogaria fora os calendários. Sim, eu deixaria de importa-me com as horas, com os dias e os meses. Pararia de mencionar o dia em que o vi pela primeira vez e deixaria se perder em minha memória o dia que me magoastes. Ah, como queria abandonar a moralidade do tempo e tudo que ele nos impõe, gostaria mesmo de perder-me naquela pequena fração de segundo que antecede nosso beijo e sinto teu coração disparar, perder-me nos minutos que duram os beijos ternos que me envolvem. Adoraria perder-me nas horas que passam voando quando estou ao seu lado, sim, o que mais queria era perder-me neste tempo. Já nem sei como dizer-te que o tempo para mim já não importa, és-me sempre novo e fresco como a brisa que toca-me pela manhã, jamais poderia dizer-te que o tempo para nós há de ser deveras importante, rompemos com a temporalidade e não saberíamos dizer qual é nosso recorte temporal, pois nunca passamos tanto tempo, em tão pouco tempo juntos.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

eu gosto


Filme: Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain
Música: Pas Si Simple – Yann Tiersen


Faze-me um bem. Emana de teu corpo um calor que causa-me um bem estar único, quando o vejo vindo ao longe, sinto palpitar em meu peito as incontáveis ansiedades que eu guardava para tua vinda, e tu consegues rasgar em mim um sorriso com a precisão de um corte de bisturi. Então fico desperta e ereta diante de ti a oferecer-te o que julgo ser o melhor de mim. E assim, o dia corre melhor.
Gosto de ter-te assim, por perto e ao mesmo tempo distante. Passa por meus dias como um sorvo rápido, mas deixa por aqui a paz de anos. Gosto da vontade que sinto de olhar-te mais uma vez quando partes, e fico a mirar-te pelo retrovisor do carro. Gosto de sentir minha vergonha dissolver-te em tuas mãos, como se tu pudesses ter o poder de fazer de mim o que bem entendes, gosto de sentir-me entregue as tuas vontades. És-me a vontade da escrita, és-me a vontade de extravasar as palavras que estão dentro de mim, só por isso tu já valerias a pena.
Às vezes, quase peço para que fiques mais, apetece-me crer que eu o guiaria por estradas mais seguras, desviaria das curvas e derraparia no canto do teu nariz, que para mim já é o que tem de mais belo. Há em ti um resquício de tristeza, uma seriedade forçada, que eu aposto que manifesta-se em ti no escuro, quando ninguém o vê e faze-me ter vontades loucas de fazer-te festas e rir mais, confessando-lhe segredinhos ao pé do ouvido, quase te fazendo arrepiar. Faze-me um bem, faze-me melhor, sabes dizer e agir, sabes como me ganhar e cá já nem me importo mais, pois assim, o dia corre melhor.
*baseado no texto de Sofia Vieira

domingo, 22 de junho de 2008

há de existir



Filme: La Veuve de Saint-Pierre
Música: J’ai Deux Amour – Madeleine Peyroux


Há de existir mil modos de eu sair de perto de ti. Mil modos de escapar antes que tudo isso termine mal, mil modos de ver-me livre dos teus olhos. Com certeza há de existir mil maneiras de te evitar, de não te ligar, de não te procurar. Mil maneiras de fugir da tua presença, da tua risada, do teu domínio. Há de existir realmente mil modos de desaparecer, de te esquecer, de seguir em frente. Eu sei que há esses mil modos, tu também sabes, mas o que eu e tu não sabemos é como faremos para descobri-los.

eu vou te ver mais uma vez



Filme: Elizabethtown
Música: Hello, I'm Delaware - Dallas Green


E de repente é teu cheiro que me chega, será de minhas mãos? Lavo-as insistentemente, para ter a certeza de que não vinha delas. Então cheiro minhas mangas, a gola do casaco, olho para os lados, será que alguém usa teu perfume? Farejo tudo ao meu redor e perco-me na tua procura. De repente teu cheiro me chega, e desespero-me só com o fato de imaginar que tu já estás impregnado em mim. Só de pensar que fazes parte de mais de duas horas dos meus dias isso enche-me de um medo, um medo que nem sei descrever. Para além das quatrocentas e oitenta horas que já pensei em ti, e das mais de vinte cinco noites que sonhei contigo, não gostaria de ver-me tão entregue. Porém, podemos combinar que é inevitável, pois eu adoro acreditar nas promessas que me fazes. Aquelas promessas de que nos veremos no próximo dia.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

quinta-feira, 19 de junho de 2008

conta ao meu coração



Filme: La Vida Secreta de las Palabras
Música: Mente ao meu coração – F. Malfitano (Interpretação de Paulinho da Viola ou Maria Rita Mariano)


Tu chamas e eu não acredito. Acelero os passos tentando escapar da tua voz que me segue e desespero-me em pensar na possibilidade de um encontro. Chama-me e eu como tola, ponho-me a andar depressa na esperança de que tu deixes de me seguir. Tu chamas e eu receio, juro mesmo que havia de esperar mais 365 dias para ouvir tua voz dirigindo-se a mim, sem meu nome, notadamente. Mas dirigindo-se a mim. Chama-me e eu digo a mim mesma que não, que não posso parar, que não devo me atrever a olhar para trás. Tu chamas e eu tento imaginar o porquê, minhas chaves que caíram, uma folha, um brinco. Tu chamas e eu tento disfarçar o nervosismo, em pensar que eu havia apostado com uma amiga que se me chamasse eu haveria de atender logo. Chama-me e por uma fração de segundo imagino o que devo dizer-te, como portar-me, tentar de agradar. Se mexo nos cabelos, se paro e olho para o chão, se encaro teus olhos grandes. Tu chamas e eu espero, paro e espero, desejo e espero, que tu encha-me de confissões só tuas, das inúmeras vontades que tu tinhas sentido de falar comigo e como tocar-me agora era bom.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

nunca a única



Filme: Sipur Hatzi-Russi

A primeira impressão é a que fica. Disseram-me isto certa vez. Se desperdiçamos a chance de se causar uma boa primeira impressão, o que nos resta? Para além de inúmeras reclamações ou pesos na consciência, o que devemos é mostrar que não somos o que aparentamos ser. De tudo a tarefa mais difícil, mostrar o que há por trás do mistério do primeiro encontro, mostrar em 35 minutos o quão interessante e belo somos, mostrar em 35 minutos que somos melhores do que nos mostramos. Convencer alguém de suas qualidades não é uma boa tarefa, devo me atrever a dizer que se alguém lhe impõe tal prova, digna de ti não é. Tu poderias passar não 35 minutos ao lado desta pessoa, mas sim 35 anos e não saberia me dizer se a conhecia por completo. A primeira impressão é que fica. E juro, não há nada, absolutamente nada que possa mudá-la, porque a primeira impressão já é passado, é o que era e já não é mais, é a que fica, mas não pode ser a que permanece. O importante é causar impressões (sensações) novas todos os dias, para assim dizer não só a ti mesmo, mas a quem queres que a primeira impressão é só a primeira, porém nunca a única.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O que é um beijo? Se eu posso ter o teu olhar...



Filme: Marie Antoinette
Música: Malemolência - Céu


Deixe-me considerá-lo uma promessa de um futuro bom. Então deixe que eu te fite assim de longe mesmo, a admirar tua beleza efêmera, teu sorriso malicioso, teu olhar sério. Deixe-me fazer um ou dois planos ao seu lado, sonhar que estamos juntos num lugar qualquer, conversando assuntos sem importâncias. Deixe-me ainda crer que és-me algo inalcançável, inatingível, impossível, para que eu ainda possa viver de vontades. Deixe-me pensar que és mesmo o que sonhei para mim, que és o amado que tanto esperava. Deixe-me manter-te um tanto quanto afastado, nessa distância remediada, a distância suficiente que nos permite olhar-mos nos olhos, e darmos-nos sorrisos discretos. Distância essa que sacia a saudade dos teus olhos com os meus, a saudade tola de se ver alguém que achamos extremamente belo passar. Deixe-me assim, parada, encostada no capô do carro enquanto tu vens devagar, tímida-se com minha presença desconcertante e solta-me um sorriso abaixando a cabeça e andando lentamente, só para ver se eu te sigo. Deixe-me assim, por quanto tempo não sei. Só deixe-me assim, porque me fazes bem. Sem mais, despeço-me aqui.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

nem é bom pensar



Filme: The Sixth Sense
Música: Pra Dizer Adeus – Edu Lobo e Torquato Neto (Interpretação de Elis Regina)


Poderia manter-me assim. Tentar te alcançar, tentar falar com você e não conseguir. Manter-me assim, nessa estranha transparência. Foram inúteis todas as vezes que tentei me aproximar de ti novamente, tu passavas por mim como quem passava por uma porta. Não me notavas mais. Ignorava-me. Não que isso me incomode, longe de mim, tu deves ter teus motivos. Mas, no entanto, fica algo meio estranho entre nós, uma tensão, uma intenção, uma vontade não confessada. Quero ainda manter-me assim, transparente aos teus olhos e aos teus sentidos. Viver do esforço que faço para me aproximar, fingir acreditar que é tudo natural, e continuar contando as mesmas histórias que não vivi ao seu lado. É assim que quero manter-me, casta, calada a olhar-te de longe, na espera de um olhar de compaixão seu. Manter-me-ei assim, nesse meu submundo de sentimentos. E continuaria assim para sempre, no mesmo estado inerte, afinal, há muitas formas de morrer.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

não posso livrar-me



Filme: Babel
Música: Celos - Gotan Project


Tu querias que eu lhe mostrasse como me senti ao rever-te, que joguei-me ao chão, desmanchei-me em lágrimas frias e solucei pedidos de volta, desculpa, não o fiz. Queria que eu descrevesse o que se passava em meu peito apertado ao topar com teu sorriso sem graça, dizer que meu coração palpitava e minhas pernas, estas ficavam bambas de imaginar-te caminhar na minha direção, lamento, não foi assim. Esperas realmente que eu debruce-me sobre teu peito, e diga-lhe com a voz embargada que sinto a tua falta? Achas mesmo que eu seria capaz de bambear-me para teus lados? Não pensas que eu diria que adoraria deixar-me levar pelos teus olhos, e terminar num beijo de canto, no canto esquerdo do teu lábio – eu não quero – às vezes eu quero – minto, sempre quero – também não irei dizer que só me dei conta do tamanho das saudades que sinto de ti no momento em que o vi. Tu não pensas realmente que eu vá contar-te que ao chegar em casa joguei-me sobre aquele velho sofá verde e ali abraçada a uma almofada me desfiz em milhões de cacos. Que contorci-me pelo tapete e urrei de dor que vinha do fundo do meu útero até a ponta da minha língua. Querias que eu entregasse-me, contasse-me todos os meus segredos, abrisse-me para ti, abrisse meus desejos aflitos e minhas saudades enganosas, querias que eu os abrisse, como às vezes lhe abro minhas pernas com lágrimas nos olhos de tanta raiva que sinto de ti.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

quarta-feira, 4 de junho de 2008

eu sei não é assim, mas deixa eu fingir e rir.



Filme: El Pasado
Música: Sentimental – Los Hermanos
Quadro: O beijo – Gustav Klimt

Diga assim que não é verdade. Não é verdade que esqueceste-me, que não pensas mais em mim e que nem recordas as nossas risadas. Por favor, diga-me que estás mentindo ao dizer que és indiferente que minha presença não te causa mais nada. Ah, diga que isso não passa de disparates proferidos por tua boca num momento de raiva. Diga que não passa de um engano eu pensar que tu vais bem, que teu sorriso é verdadeiro. Não podes estar falando sério ao dizer que já nem sou tão bela assim, que meu corpo nem é tão atraente. Não é verdade que tens outra, que a ama e eu estou aqui sozinha por tanto tempo a esperar-te. Por favor, diga que é um engano imaginar-te a fazer planos com outrem que não eu mesma. Diga que tu não és capaz de fazer isso, diga que só o faria comigo. Diga assim que não é verdade. Que ficamos de tolices a ignorarmos-nos pelas ruas, que é bobeira fingir que não nos amamos. Diga isso, diga que ainda há premissas de um retorno e que teu lar ainda é o meu.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Você, tristeza que eu criei.


Filme: Abril Despedaçado
Música: Você – Roberto Menescal (Interpretação de Elis Regina)

Pergunto-me: por que fui me apaixonar logo por você? Logo por você joão-de-barro. Você que é de tantas outras e nunca meu. Você que constrói moradias com tão belas passarinhas e nunca comigo. Por que me apaixonei por você joão-de-barro? Você que voa para longe, você que voa tão alto. Você que é tão belo, você que canta tão bem. Por que fui me apaixonar logo por você, meu joão-de-barro? Você que nunca pode ser meu. Você que nem imagina que estou a namorar-te de longe, que estou a imaginar-te meu por poucos minutos, que estou a sonhar que um dia podes voltar. Logo você joão-de-barro, que tem por costume prender quem amas, mas não fui eu a escolhida para entrar no teu ninho e fazer-te feliz. Poderia eu amar o sabiá, que sempre vem cantar na minha janela, cantar a volta que tanto desejo. Amar o bem-te-vi, que fica feliz ao me olhar. Amar o quero-quero, que me deseja como você nunca me desejou. Poderia apaixonar-me por qualquer um destes pássaros, mas fui apaixonar-me por você, meu joão-de-barro, logo você que adora me ignorar.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

isso era o nosso amor



Filme: The Bridges of Madison County
Música: Between the Bars – Madeleine Peyroux


O Amor não pode ser isto. O Amor não pode ser esse amontoado de noites em claro, choradas sentidas. O Amor não pode ser esse punhado de lembranças que vivo a remoer dentro do meu peito. O Amor não pode ser a solidão da qual já estou condenada a viver. Não o Amor não pode ser isso. O Amor não pode ser esse canto triste, a música que nos faz sofrer. O Amor não pode ser a inúmeras fotografias espelhadas pelo tapete, vistas e revistas tantas vezes. O Amor não pode ser o modo de preparo daquele prato, usar azeite de oliva e manjericão. O Amor não pode ser o mate amargo guardado na despensa, a cuia vazia, e a falta de companhia para um chimarrão. O Amor não pode ser isto. O Amor não pode ser a cama desfeita, sem teu corpo sobre ela. O Amor não pode ser o jornal entregue todas as manhãs, e lido pacientemente enquanto tomo meu café. O Amor não pode ser esses mais de duzentos livros na estante, somente metade deles é meu. O Amor não pode ser o teu instrumento largado naquele quarto de hóspede nunca usado, teu instrumento abandonado, as tuas músicas que não são mais tocadas. Não, o Amor não poderia ser isso. O Amor não pode ser todo esse vazio todo esse silêncio. O Amor que conhecemos outrora era mais belo, havia música, lembras-te? Compreendemos que isto tudo não poderia ser o Amor, pelo menos não o Amor que conhecemos. Pois o Amor faz-se cheio, e é cheio e rico de minúsculas presenças que o constroem. Isso era o nosso Amor.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

está escrito



Filme: Serendipity
Música: Waiting in Vain – Bob Marley


Se chegares as 18:25, e caminhares até o café, é sinal de que deve ficar comigo. Se chegares ao café e sentares na mesa a minha frente, é sinal de que devemos ficar juntos. Se sentares na mesa a minha frente e pegares o jornal com a mão esquerda, é sinal de que ficará comigo. Se pegares o jornal e pedires um espresso, é sinal de que iremos ficar juntos. Se levantares e saíres sem me notar, é sinal de que não chegou a hora.
Se eu o encontrar na fila do pão as 7:30, é sinal de que deve ficar comigo. Se tu parares atrás de mim e soltares um bocejo longo, é sinal de que devemos ficar juntos. Se tu pedires três pãezinhos franceses e apoiares os cotovelos no balcão, é sinal de que ficará comigo. Se tu saíres e me olhares, dizendo “bom dia” é sinal de que a hora está chegando.
Se andares com pressa e eu topar contigo na esquina e tu esbarrar em mim, é sinal de que deve ficar comigo. Se no esbarro meu cachecol cair no chão, eu sair com pressa e tu pegares ele, é sinal de que devemos ficar juntos. Se tu chegares a paragem do auto-carro e eu estiver lá esperando meu carro vir, é sinal de que devemos ficar juntos. Se tu entregares meu cachecol e eu esquecer contigo minhas luvas, é sinal de que ficará comigo. Se entrares no teu carro e notar que minhas luvas estão nas suas mãos é sinal de que iremos ficar juntos. Se o amontoado de coincidências não forem o suficiente para fazerem com que nos encontremos novamente, ficou mais do que provado que o destino está tentando nos unir.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

isto poderia ser um encantamento



Filme: Proof
Música: Enchantment – Corinne Bailey Rae


Ao atravessar a rua, fixo o meu olhar do outro lado dela para que eu não ande topando com os teus olhos por aí. Verdade que nos últimos tempos nem tenho pensado em ti – “hoje não me lembrei dele, graças a Deus”- tem sido assim meus dias. E ao caminhar naquela rua, fixo meu olhar numas tantas outras pessoas que me vêm meio ofuscadas. Ofuscada pelo que? Eras tu que vinhas no meio delas, e num instante todas elas me desapareceram para que tua imagem ressurgisse frente aos meus olhos deixando-me assim, meio tonta, meio boba, meio chorando. Estupidamente apareceste, e permaneceste parado a minha frente tão inabalável, me parecia mais alto que de costume, me lembrava de ti mais próximo de mim. E tu tão imponente, desprezou-me como é de costume que o faça. Verdade que eu lembrava de ti mais baixo, mais feio também, mais gordo. Tu estava ali tão belo e elegante que mal o reconheci. E num instante me voltava aquelas recordações imbecis, que me impedem de iniciar uma nova semana. Verdade é que eu nem pensava mais em ti nestes últimos tempos. Verdade que acho melhor voltares ao teu lugar no passado. Verdade que ainda pretendo trancar-te na gaveta da cômoda, junto com tuas fotos e duas cuecas que esqueceste na minha casa.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

encarar a escuridão

Filme: Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus
Música: Shoot the Moon – Norah Jones


Às vezes pergunto-me: o que será de mim sem te ter por perto? Das muitas coisas que me vêem a mente, nenhuma delas me é satisfatória. De qualquer modo parece-me que a solidão viverá a fazer-me companhia, como é desde que partiste. Já me vejo caminhando pelas mesmas ruas vazias pelas quais passamos tantas vezes de mãos dadas, vejo-me tomando o mesmo café todas as manhãs, sozinha na frieza da nossa cozinha. Vejo-me ouvindo as mesmas canções que nos embalaram tantas noites, agora sozinha, deitada sob a cama na qual dividimos tantos invernos. Já me vejo entrando no cinema sozinha, escolhendo o filme que adoraria assistir ao seu lado e penso nos comentários que faríamos quando o filme terminasse. Vejo-me jantando sozinha naquele restaurante italiano que costumávamos ir. É assim que me vejo. Vejo-me como uma peça perdida de um quebra-cabeça, perdida em uma tarde nublada no centro da cidade. Vejo-me rodeada de pessoas, mas ao mesmo tempo solitária, vejo sorrisos tristes e forçados, vejo lágrimas contidas, vejo um bem-estar falso. É assim que enxergo-me sem ter-te por perto. Vejo todos os dias, daqui para até o fim da minha vida repletos de sensações vazias, repletos de segredos não contados, repletos de sentimentos não confessados, repletos de beijos mal dados, de tentativas fracassadas. Pergunto-me: o que será de mim sem te ter por perto? Para além do consumismo de minha solidão, não vejo mais nada, só o fato de que tornei-me uma carta fora do jogo, uma carta descartada.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

se tu me apontares o caminho



Filme: Umi wa miteita
Música: Alone in Kyoto - Air

Se tu me apontares o caminho, quem sabe desta vez eu saiba como proceder. Se tu me disseres que venho errando, eu vou entender. Se tu quereres ajudar, eu aceito, mostre-me como agir, quem sabe assim as coisas dão certo desta vez. Se tu achar que não é válido tudo bem, até pode ser que não seja mesmo. Se tu pensas que o tempo passou, que as coisas não são como antes, talvez seja o momento de fazermos diferente, não sei. Se tu me indicar o lado correto, eu vou seguir. Se me contares as minhas falhas, eu vou mudar. Se me achares gorda, faço um regime. Magra demais? Engordo. Se meu cabelo curto não agrada, eles crescem. Se meu all star é velho demais, compro um novo. Se minhas roupas não condizem com teu estilo, então vamos as compras! Se achares minha risada alta, eu me contenho. Se achares meu papo cansativo, eu divago sobre outras coisas. Se o cinema te cansou, falemos de música. Se a música te cansou, falemos de amor. Se tu me apontares o caminho, quem sabe desta vez eu saiba como proceder. Não me canso de fazer muito para lhe merecer, da última vez tive a nítida sensação de que havia agido corretamente, engano meu, tu partiu sem ao menos dizer adeus. Agora que retornas mostra-me como te ter por perto, para que dessa vez não nos deixemos mais.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

o velho texto batido



Filme: In Good Company
Música: Não Vale a Pena – Maria Rita


Desistir de ti foi uma das atitudes mais corajosas que pude tomar. É fato que abandonar velhos sonhos e projetos é doloroso, mas não nos resta muito após a derrota. Desistir de ti não foi nada fácil, e confesso, às vezes eu ainda me arrependo. Principalmente quando vejo tuas fotos, ou quando me dá notícias suas, arrependo-me quando descubro que está em nova companhia e que vais bem com ela. Desistir de ti foi bom pra mim, foi bom pra ti, só nem sei por quanto tempo. Apetece-me crer que assim é melhor, que os tropeços que nos derrubaram tantas vezes, agora não nos ferem mais. Tudo bem, já é feliz, só eu que não. Desistir de ti foi por demais doloroso, e antes de tomar tal atitude recordava-me de cada risada tua ao meu lado e tentava encontrar ali naqueles momentos alegres mais motivos para continuar lutando por ti. Acontece que me abati, e talvez as tuas faltas tenham sido tantas que não pude mais lutar. Desistir de ti foi um ato de orgulho, de brio, para que eu não me humilhasse mais uma vez por um novo amor, deixe-te ir antes mesmo de tentar, não queria dar os mesmos velhos murros em pontas de facas. Desistir de ti, antes mesmo de tentar foi para que tu aprendesses sozinho que nem sempre uma beleza exuberante é tudo, na verdade, as coisas mais belas estão nos detalhes, na simplicidade. Aquilo que vivemos foi recheado de belos detalhes e coisas simples, mas tu não soubeste observar. Desisti de ti, para que pudesses crescer e quem sabe lutar por mim um dia.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

hoje acordei e lembrei

Filme: Como Agua para Chocolate
Música: Carta - Toranja


Como posso com a saudade? Se ainda sinto-te caminhar com as pontas dos dedos sobre meu corpo, e tu me traçavas linhas invisíveis com teus beijos. Como posso com a saudade? Se ainda posso encontrar fios de cabelos teus em meus lençóis, e recordo-me piamente do cheiro do seu suor, misturando-se ao meu, umedecendo as fronhas de meus travesseiros. Como posso com a saudade? Essa saudade que traz-me ti ainda tão lindo e intocável como a primeira vez que te vi, era qualquer coisa assim de olhos e boca, que admito, fizeram-me perder por incontáveis segundos enquanto te admirava. Não gostaria de contar-te a falta que teu corpo faz ao meu, e nem queria dizer-te que o desejo com a mesma intensidade da primeira noite de amor. Mas fica quase impossível despir-me de ti, como quem se despe de uma roupa, estás em cada célula minha. Se meus lábios são sedentos por beijos seus, a culpa não é minha, a culpa é da sua língua que a explorar minha boca deixou por aqui sinais que nunca mais se apagaram. Como posso com toda essa saudade? Se ainda meu coração dispara só de pensar em ti, e imaginar-te nu sobre a mesma cama na qual nos amamos tantas vezes faz-me soluçar em prantos, pois meus desejos poderiam ser facilmente saciados, não fosse pelo fato de amar-te tanto. Como posso com a saudade?

terça-feira, 13 de maio de 2008

para me encontrar


Filme: Lost in Translation
Música: Sometimes – My Bloody Valentine


Dá-me um sinal qualquer. Um olhar discreto, um sorriso tímido. Dá-me qualquer sinal de que sentes minha falta, de que caminhas perdido por aí tentando me encontrar. Dá-me um sinal de que toma banhos demorados, tentando esfoliar-me de tua pele, mas que ainda assim fica difícil tirar meu cheiro de ti. Dá-me um sinal de que choras, de que sofres, de que sentes saudades. Um sinal de que quer me ver, de que quer conversar comigo, dá um sinal qualquer de sentimento bom, de dor no peito. Dá-me um sinal de que sua vida vai mal, de que passas noites em claro. Dá-me um sinal de que és triste, triste demais para falar a verdade. Dá-me um sinal qualquer de que ainda não me esqueceste, de que ainda pensas em mim. Sei lá, dá-me um sinal qualquer, só um sinal. Dá-me um sinal, por favor.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

o vento se foi



Filme: Mi Vida Sin Mi
Música: The Long Day Is Over – Norah Jones
Fragmento: Ainda – Fabiana Baioni


Espero realmente que me perdoes um dia. Que me perdoes pelos mil eu-te-amo que eu queria ter-lhe dito e não tive coragem. Espero que me perdoes pelas todas as vezes que desejei imensamente ir ao seu encontro, ligar-te no meio da noite, fazer-te um jantar. Quero que me perdoes por nunca ter feito isso. Que me perdoes pelos mil perdões que eu queria ter-lhe pedido, pela minha falta, pelo meu silêncio, pela minha omissão. Mil perdões pelas mentiras, pelas risadas forçadas, pelas lágrimas contidas, quero que me perdoes por nunca ter me conhecido por inteiro. Espero que me perdoes por nunca deixar-te decifrar um olhar meu, por não permitir-te que viesse à minha casa, que entrasse no meu carro, que ouvisse minha canção predileta. Que me perdoes por não passar uma noite ao seu lado, por não almoçarmos juntos, por não termos uma rotina. Espero que me perdoes por nunca ter conhecido meus pais, meu cachorro, minha biblioteca. Que me perdoes por conhecer somente 10% de mim e pensar que se tentasse conhecer o restante estragaria tudo. Espero realmente que me perdoes pela raiva que lhe causei, pelas lágrimas que tu derramou, pela cólera de se amar alguém que não podes ter. Que me perdoe pelos oito quilos que emagreceu, pelo excesso de cigarros, excesso de bebidas e noites em claro. Espero que me perdoes pela minha fraqueza, pela minha falta de coragem em dizer que contigo moraria no Alasca e que o frio me faria bem, pois eu me sentiria viva. Que me perdoes por estas mazelas do passado, me perdoes pelo atraso, tardio, mas reconhecido de que só terei paz com o seu perdão.

“(...) se me perguntassem hoje o que eu ainda espero dessa vida,
Eu diria que pra essa e pra qualquer outra vida,
eu ainda espero te reencontrar.”

domingo, 11 de maio de 2008

quisera desse jeito lembrar de outros tempos



Filme: Things We Lost in the Fire
Música: Mais um Lamento - Céu


Achas boa idéia sermos amigos? Ou tu tens a mesma impressão que eu? Que sempre nos falta algo mais – um abraço mais apertado, um sorriso malicioso, um carinho mais íntimo, sentes falta também dos beijos longos na boca – aquela cumplicidade de antigamente, não é? Não sei o que te faz crer que podes confiar nas minhas mãos audaciosas, nunca se sabe quando elas podem surpreende-te com um carinho discreto. Não sei como podes acreditar nesta minha boca falsa, a qualquer momento posso roubar-lhe um beijo, deixá-lo sem fôlego, sem ação. Sei que não confias em meus olhos, disso eu sei, esses são ameaçadores deveras, poderias cair em um de seus truques e acabar se entregando. Achas mesmo boa idéia sermos amigos? Não sei bem por quê, mas noto que não há espaço para uma amizade entre nós, tu és mais que um amigo e menos que um amante, não poderia classificá-lo numa categoria segura para uma boa convivência ao meu lado. Fica ainda uma pouca intimidade, numa brincadeira ou outra, uma aproximação forçada só para sentir meu cheiro novamente, um abraço perdido no meio de uma conversa, um segredinho confessado ao ouvido, fica ainda essa intimidade idiota que não nos permite sermos amigos. Tu e eu esperaríamos sempre algo mais de nossos encontros, acreditaríamos sempre que um beijo selaria o final de uma noite, por isso creio que uma amizade entre nós seria tão falsa quanto o amor que um dia juraste ter por mim.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

vento vem terminar



Filme: Cão Sem Dono
Música: Travessia – Milton Nascimento


Vivemos um romance com a brevidade das estações do ano, tão curto e belo como um inverno intenso. Tão devastador quanto uma enxurrada, teu amor deixou marcas mais fortes que grandes vendavais, foi sim único e porque não dizer o verdadeiro amor. Vivemos um romance com a brevidade das estações do ano, começou num outono, fortificou-se e embelezou-se com as folhas que caiam das árvores, caminhavam-nos sobre as folhas secas e sentíamos o vento gélido esfriar nossa face e fazer os olhos lacrimejarem. Vivemos um romance com a brevidade das estações do ano, o amor não resistiu ao inverno rigoroso que se apossou dos nossos corações, e nem foi capaz de passar íntegro pelo dias frios que nos aquecemos juntos dividindo uma mesma cama. Vivemos um romance com a brevidade das estações do ano, um amor solitário como os dias de inverno, um amor delicado como os dias de outono, um amor triste como a chuva que insistia em cair. O romance que permitimos-nos viver foi tão curto quanto o inverno curitibano, mas tão belo quanto as tardes ensolaradas de um outono, foi um romance com a brevidade dessas estações. E hoje faz muito frio, frio porque é outono e logo inverno novamente, frio porque caminho sozinha sobre as mesmas folhas secas, durmo sozinha na mesma cama fria, frio porque meus pés não se aquecem sem os teus, frio porque faz muito tempo que não te tenho ao meu lado.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

fiz de tudo e nada de te esquecer...



Filme: The Hours
Música: Sabiá – Chico Buarque e Tom Jobim (Interpretação de Elis Regina)


Pensei que teria a coragem de seguir em frente sem mais pensar num passado triste e obscuro que me persegue. Engano meu, o passado vive a visitar-me, visitas surpresas onde entro em contato com algo que imaginei ter perdido. Ao viajar de encontro com o passado percebo como meu presente é triste, ele não passa de pequenos fragmentos do que fui um dia, um sorriso sincero, alguma lágrima a rolar, uma voz bem rouca, tudo isso são fragmentos de um ser que há muito tempo deixou de existir por completo. A minha falta de coragem em buscar um futuro consiste no fato de eu saber que meu passado foi confortável, assim deixo que suas visitas sejam longas e prendam-me cada vez mais numa história remota, que já deveria ter sido esquecida. Assim quero permanecer, presa num conto qualquer, e quando a noite chegar, trancar-me-ei no quarto e permitir-me-ei ficar sozinha, nua e em silêncio, esperando o passado vir me visitar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Errant dans les rues de mes souvenirs...



Filme: Match Point
Música: Rue de Mes Souvenirs – Orquestra Imperial


Olá, como vai? Lembrei-me de ti hoje, não sei bem porquê, mas lembrei-me. Podíamos marcar um encontro um dia desses, um café, um almoço, algo assim. Apetece-me crer que uma cama não seria má idéia. Preciso saber o que tens ouvido, se aquele CD do Tom ainda o agrada, quero saber o que tens lido, o livro do Almodóvar é deveras engraçado, sabia que tu ias gostar dele. Não me recordo bem a nossa última conversa, nem que com que palavras eu acabava de me vestir, só acho que poderíamos manter boas aparências. Sei que tens muito trabalho, compreendo a falta de tempo, mas não te atreverias esquecer-me, não é? Sempre arranjamos um tempinho ou outro para um casinho antigo. Não peço muito tempo, uma hora, uma vida talvez. Nada de mais. Podíamos nos encontrar naquele velho hotel do centro, sabe aquele? Com a sacada de frente para a praça. Bom, se não podes me encontrar tudo bem, morro assim, mas deixe estar. Fica assim a correres atrás de tantas outras, apodrece sem mim e quando sentires minha falta... então, quando sentires minha falta... Enfim, quando sentires minha falta, volta! Até logo, adeus!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

venho tentando me controlar...



Filme: Autumn in New York
Música: Call Me When You Get This – Corinne Bailey Rae


Temos um tratado de desencontro. Prometo cumpri-lo. E hei de fugir de ti, como quem foge do mal. E dobrarei esquinas as pressas para te despistar, sentarei nos cafés, mas sempre nos fundos para que não me enxergues. O tratado de desencontro consiste no fato de nunca mais me veres, de eu sempre estar escondida atrás de ti, para que teu fraquinho por mim não nos cause maiores problemas. Hei de esconder-me sempre, quando passares ao meu lado hei de virar o rosto, quando parares com seu carro ao lado do meu no semáforo, erguerei o vidro, aumentarei o volume do som e arrancarei com pressa. O tratado de desencontro é para o bem geral de todos, dos amigos, das amigas, é para seu bem, meu bem, para o bem do meu namorado. Sabe, também tenho um fraquinho por ti, se nos encontrarmos por aí, boa coisa não será. Temos um tratado de desencontro, prometo cumpri-lo. Manter-me afastada de ti, como se tu pudesses me ferir, ou então me matar, olhá-lo e não vê-lo, ignorar-te, manter a distância remediada por nós mesmos, a distância que sacia um pouco da nossa saudade e permite vivermos em paz, distância esta que nunca é suficiente para que estejamos livres um do outro, porém esta mesma distância é a que possibilita um olhar ou outro, meio sem jeito, tímido. Esse tratado de desencontro é para que tu possas seguir em frente sem mais pensar em nós, é um tratado desleal, é um tratado covarde, é um tratado idiota, tratado sem nexo, tratado imbecil... já nem sei mais como voltar atrás dele, faria muito para tê-lo de volta, mas temos um tratado de desencontro e eu hei de cumpri-lo.

domingo, 4 de maio de 2008

por te amar



Filme: The Lost City
Música: Tanto Amar – Chico Buarque


Fácil mesmo foi te amar. De muitas coisas que já fiz por aí, confesso que amar-te foi a mais fácil de todas. Já criei algumas teorias, já iniciei um livro, inventei um prato diferente, compus uma música, já pintei um quadro, já rompi com pessoas que me faziam mal. Tudo isso me foi um tanto quanto difícil de se fazer, mas amar-te foi tão fácil. Não saberia dizer direito por quê, não sei se pela sua voz, não sei se pela beleza, pela intensidade do teu olhar, não sei também se é pela sua inteligência, sempre o achei tão interessante. Realmente não sei por que te amo, talvez o ame por tudo isso, ou por nada disso, talvez seja algo que eu não consiga explicar, só sei que amá-lo foi muito fácil. Adaptar-me a ti foi muito fácil, preparar-me para te encontrar era muito fácil, era prazeroso, dividir minha vida contigo foi algo extremamente fácil. De fato, te amar foi muito fácil, muito rápido, acredito que tenha sido questão de segundos, o vi, tu sorriu e eu apaixonei-me, nossa, muito rápido. Sempre achei que a vida ao seu lado seria muito fácil, ainda acho que é. É realmente, fácil mesmo foi te amar, no mais o resto tornou-se tudo muito difícil, ainda preciso arranjar maneiras de lidar com tamanhas dificuldades.

sábado, 3 de maio de 2008

eu simpatizo


Filme: À la Folie... Pas du Tout
Música: Been Here Before - Jeremy Enigk


Tens outra, eu já sei. Andaram me dizendo que és feliz com ela, até mais feliz do que foi comigo, soube também que com ela faz planos de um futuro não muito distante, disseram-me que ela é bonita, dizem que combina contigo.
Tens outra, e provavelmente já a tinha antes mesmo de deixar-me, tudo bem, isso na verdade nem me machuca tanto. Soube que pretendes partir ao lado dela, morarem num outro país, ter uma nova vida. Sei que ela o agrada de todas as formas, te faz homem de verdade, vive para ti. Contaram-me que ela é vaidosa, usa os cabelos longos e possui uma elegância sem igual, fizeram questão de dizer que ela era muito diferente de mim.
Tens outra, eu sei. Não posso queixar-me disso, não é? Creio que nunca tenha sido meu realmente, vivemos histórias muito curtas, pela metade, nunca conseguimos concluir uma conversa, nunca conseguimos dividir uma cama por muito tempo, nunca tivemos amigos em comum, nunca viajamos juntos e nem compramos um presente para o outro.
Tens outra, sei que tens e dessa vez não posso dizer-te nada, não posso mais mostrar-te nada do que sinto, porque se tens outra é porque não pensas mais em mim, tens outra como sempre teve, eu é que nunca estive contigo de verdade.

previsto



Filme: Não por Acaso
Música: Laços – Toranja

Partiste enfim, e nem ao menos deixaste eu dizer adeus. Foste embora sem pesar algum sobre teus ombros, simplesmente foste. Muito sublime este teu ir, sem muitas palavras, sem muitos gestos. Posso dizer que na verdade só foi de fato muito doloroso, mas toda partida é difícil. Eu já havia te perdido, assim de leve, mas já havia o perdido e agora que foste mesmo embora sinto muito por não ter tentado provar-te algo antes. Partindo tu mostrou-me que era mesmo capaz de deixar-me, o fez sem medo algum. Mas foste assim, nem uma palavra confortante, nem uma promessa de um “até logo”, partiste, creio que para sempre, partiste.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

para trazer o passado à tona



Filme: Walk the Line
Música: One – U2 (Versão Johnny Cash)


Nem podes imaginar, mas ainda ando falando de ti por aí. Como se ainda fossemos um casal, ou bons amigos, qualquer coisa que me faz manter-te próximo. Falo de ti, e apetece-me crer que o fazendo tu não partes definitivamente, bobagem minha, né? Tu já foste embora há tanto tempo. Mas deixe que fique eu a tola lembrar das tuas risadas feias e da saliência da tua barriga. Deixe que lembre das palavras estúpidas, muito comuns a sua boca, do mau jeito com as coisas, da hostilidade muitas vezes gratuita. Não recordo ter merecido uma vez sequer que tenhas me tratado mal, mas tu o fazias. Ando falando de ti, como se fala de um membro perdido na guerra – aquele meu velho braço, aquela boa perna – falo de ti como um móvel perdido na mudança, falo com o pesar de uma viúva, com o pesar que me pertence, o pesar de amante mal amada.
Acho que tu nem sabes disso mesmo, mas continuo a falar de ti, como eu falava quando o conheci, minha nova descoberta, meu novo amigo. Falo como se ainda fizesses parte do meu dia-a-dia, como se ainda dividíssemos uma cama às vezes, como se ainda tu me convidasses para um café. Falo como falaria de um irmão que fez uma viajem longa, mas que podes retornar a qualquer momento. Como tola que sou, falo de ti achando que assim a imagem de teu rosto permaneça intacta em minha memória, besteira, né? Eu mal recordo a cor dos teus olhos, ás vezes me custa lembrar o tom da tua pele, ou como era a sua voz – mentira – mal lembro se eu ria ao teu lado, ou se sempre me fez chorar como agora, não lembro.
Tu não sabias até agora, mas ainda falo de ti. Falo com a voz embargada, com uma rouquidão estranha, com a laringe carregada, com os olhos marejados de lágrimas, com as mãos geladas, falo e continuo a contrair o maxilar quando o faço, prendendo um choro desesperado que espera muito tempo para ser libertado. Falo de ti com o mesmo pânico do dia em que me deixaste, falo com a mesma dor, falo com a intenção de que um dia ouça, ou simplesmente suspeite que ainda o amo e isso seja motivo suficiente para voltar a me olhar.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

desse amor que eu nego tanto


Filme: Little Children
Música: Retrato em Branco e Preto – Tom Jobim e Chico Buarque



Dá-me maneiras de esquecer-me de ti. Cause em mim sensações estranhas, raiva, cansaço, ódio, faça assim para que entre nós não fique a compaixão, a consideração, a cumplicidade, dá-me modos de ver-me longe de ti. Procure tuas camisas limpas, não as encontre, procure tua comida pronta, não a encontre, procure a cama estendida, não a encontre. Crie em ti o sentimento de descaso, de pouco caso, sem casos, acabou-se nosso caso, inicie um novo caso. Dá-me maneiras de esquecer-me de ti. Deixe na sala teus calçados jogados, toalhas molhadas sobre a cama, tampa do vaso levantado. Cause em mim o sentimento da perda, da solidão, da ingratidão, da humilhação, tome a atitude de abandonar-me, largar-me quando mais preciso de ti, arranje mil maneiras que sejam suficientemente convincentes que me façam esquecer de ti. Dá-me estes modos de te afastar, para que quando as noites chegarem eu não recorra ao quarto ao lado, onde tua silhueta está depositada sobre a cama de solteiro, pronta mais uma vez para meus pedidos de volta.

terça-feira, 29 de abril de 2008

para amar uma mulher



Filme: Don Juan DeMarco
Música: Have you Ever Really Loved a Woman? – Brian Adams


São todos iguais. Tu és igual a eles, eles não diferem nada de ti. E eu que pensei que poderia ser diferente desta vez, enganei-me. Pois são todos iguais. Continuas a manter as mesmas palavras tolas, continuas a fazer os mesmos juramentos em torno de teus princípios, mas esqueceste de pensar num conjunto, bem estar meu e teu. Muito típico dos homens, pois são mesmo todos iguais. Não há mais nada que faça-me pensar que tu era diferente deles, confesso que por alguns instantes imaginei-te um outro homem, um homem diferente, o homem que eu esperava. Enganei-me. Tu e tantos outros agem da mesma forma, pensam no mesmo tipo de liberdade que imaginam que nós mulheres podemos tirar. São todos iguais. Aprendi como proceder diante de ti, e apetece-me crer que faço bem. Olhar teus olhos e ter a nítida certeza de que tu és como os outros não traz-me tristeza nem alegria, muito menos lágrimas aos olhos ou sorriso aos lábios. Faz-me pensar somente que tu deves ser tratado com a mesma indiferença que já tratei tantos outros. São todos iguais.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

segunda vez



Filme: 5x2 (O amor em 5 Tempos)
Música: L’homme Aux Bras Ballants – Yann Tiersen

Dei-te todas as chances possíveis, e até mais chances do que merecias. Ignorou todos os meus pedidos de atenção, ignorou-me por completo. Deixou-me falar sozinha por muitas vezes e fingiu que as coisas iam bem. Hoje me pedes que seja justa, mas há muito tempo venho tentando mostrar-te nossas falhas, digo que talvez agora seja tarde. A vida não costuma nos oferecer segundas chances, se o fiz contigo é porque acreditava no nosso amor, porém agora vejo que estive enganada, o conforto sim o fez voltar, mas nem sentes falta das nossas risadas sequer.

terra do nunca



Filme: Finding Neverland
Música: Trois Gymnopedies 1 – Erik Satie

Se volto aqui todos os dias é porque sei que posso encontrá-lo. Não só a ti, mas a mim mesma. E não me canso de retornar a estas mesmas páginas escritas com tantas lágrimas, mas que são meus únicos momentos de entrega total. Venho aqui não só para reconstituir histórias de amor, venho aqui para tentar escrever minha própria história, onde o invento de diversas formas, invento-me também. Faço-me bela, desejada, odiada, amada, querida. Faça-o meu, me deixando, retornando, me amando. Faça-o de sonhos, de palavras sem sentidos, mas o faço para que ainda assim eu possa acreditar na felicidade. Retorno aqui como quem volta ao colo de uma mãe, é aqui que encontro o conforto de minhas dores, é aqui que crio o mundo que desejei, é aqui que o amor reina soberano. Entre cenas de filmes e músicas, construo um mundo só meu, onde as histórias de amor nem sempre possuem um final feliz, mas possuem um verdadeiro significado.
Se volto aqui todos os dias não é porque sou tola ou prendo-me a pequenas ilusões. Volto porque acredito que a imaginação pode nos dar novos sentidos na vida, e se conseguirmos acreditar de coração, os nossos sonhos podem se realizar.

domingo, 27 de abril de 2008

eles não sabem amar, coisas da vida...


Filme: Closer
Música: Ela x Ele Na Cidade Sem Fim (Vanessa da Mata)


Lembra quando você pegou minha mão e disse que era feliz assim? Então, o que foi que houve que deixamos nos perder nessa história? Lembro-me bem do teu sorriso, e do modo como me olhava, lembro-me que você me abraçava muito forte e dizia a si mesmo que nunca havia conhecido alguém assim. Pois é, lembro-me de tudo isso e muito mais. Até posso lembrar dos milhões de pensamentos que me assaltaram e dos inúmeros planos que fiz para viver contigo. Lembro-me que você poderia ser uma das pessoas mais bonitas que eu havia conhecido.
Você lembra daquele dia em que andamos por aí, e num momento e outro olhávamos com orgulho de sermos felizes? Então me diz, porque deixamos isso tudo se acabar? Não sei também, só sei que ainda posso me lembrar do teu cheiro, e lembro-me muito bem como teu cabelo ficava depois do banho. Lembro-me que você me roubava beijos, e elogiava-me gratuitamente. Veja você, lembro-me da cor da tua camisa daquele domingo alegre, lembro-me da tua barba a fazer-me cócegas, lembro-me que eu pensei que você era a pessoa mais bonita que eu havia conhecido.
Você consegue lembrar daquela música que cantamos juntos, olhando firme um no olho do outro permitindo um sorriso muito tolo nos nossos lábios? Conta-me, como deixamos nos esquecer dessa canção, como permitimos que ela sumisse no triste fim da nossa história? Ás vezes custo a me recordar da melodia dessa música, mas ainda consigo lembrar-me da tua expressão ao cantá-la. Lembro-me também que dizias que passaria a vida ao meu lado a musicar. Lembro-me que pensei que passaria a minha vida a te admirar. Era mesmo de fato a pessoa mais bonita que eu havia conhecido.


Meu amor não é seu, nem o seu amor é meu.
Não sabemos amar e assim vamos deixando-nos perder nas ruelas da solidão.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

não se atrase na volta



Filme: Paris, Je T'Aime
Música: 10 Contados - Céu


Não queria dizer que eu tenha o esperado. Mas apareceste, assim, como costumas chegar. Tão lindo e fascinante. Fico eu no côncavo dos meus pensamentos, a crer que um dia possa mirar-me definitivamente, como fazem aqueles que se amam. Eu não o esperava, é fato que minha vida não ia tão bem assim, mas não desejava topar com tais grandes olhos que confundam-me, estes olhos que nunca me dizem nada, mas ao mesmo tempo trazem um conforto idiota de quem está apaixonada. É assim, eu não esperava encontrá-lo, não andei te procurando por aí, nem fui atrás de ti onde imaginei que devias estar, tu simplesmente me chegou e mais uma vez eu me vi presa ao teu modo de ser. Boba sou eu, deixo-me enganar pelo teu sorriso maroto, pelas tuas palavras belas - ditas tantas vezes a tantas outras – mas vou-me, deixo que tu mintas mais uma vez. Isso porque eu não te esperava, e nem fazia questão da tua vinda, só aceitei dar-te a minha mão porque chegas-te sem avisar e eu como tola permiti-me apaixonar-me por ti.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Reassure me



Filme: The English Patient
Música: The Stone – Dave Matthews Band


Eu nem podia acreditar, mas era tu mesmo que estava parado a minha frente. A sensação de tê-lo assim tão próximo, foi a coisa mais confortante que senti em toda a minha vida. E uma emoção enorme tomava conta do meu coração, e eu não sabia direito se devia abraçá-lo, se devia chorar, se devia beijá-lo. Não eu não sabia mesmo como proceder diante de ti, só sabia de uma coisa: eu estava voltando a ser feliz.
E quando se aproximou, lentamente, e deixou eu sentir tua respiração, eu soube que jamais poderia amar outro homem como te amo. Soube que durante todo esse tempo o que vivi foram pequenas ilusões, tolas e triviais, nada comparado a paixão louca que senti por ti. Soube também que seria incapaz de esquecê-lo por um dia sequer, pois era parte inerente do meu ser, do meu corpo, da minha vida. Era tudo que havia de melhor em mim.
Deixei que me tocasse, deixei que tua mão ficasse sobre o meu rosto. Deixei que permanecêssemos em silêncio, deixei que seu corpo encostasse-se ao meu e eu sentisse o seu calor, deixei tu reclamares da minha mão gelada, e me soltar um sorriso. Tu sempre reclamavas das minhas mãos geladas. Deixei que tu retornasses ao teu lugar, deixe que ocupasse toda minha mente novamente, deixei que preenchesse o vazio que havia se instalado no meu coração desde o dia em que partiste. Deixei que aquele estranho conforto e sensação de alívio me embriagassem, que assim eu pudesse respirar tranqüilamente, nem que fosse por algumas horas somente, sem que fosse somente pelo curto tempo que durou aquele sonho que te trazia aos meus braços novamente.

"I need so
To stay in your arms
See you smile
Hold you close
And now it weighs on me
As heavy as stone and
A bone chilling cold..."

quarta-feira, 23 de abril de 2008

espinho, cravado em minha garganta.



Filme: Jules et Jim
Música: A Rosa – Chico Buarque

Que te amo todos sabem. Amo mesmo e não quero esconder de ninguém, mas o que ninguém sabe e nem tu sabias é que amo ele também. Que o coração é um cômodo demasiado pequeno, sabemos. Que nele não se poderiam viver duas pessoas, sabemos sim. Mas eis que ele é essa caixa de surpresas, surpresas loucas difíceis de decifrar. No entanto sabemos que não há mesmo como sustentar a situação de se amar duas pessoas, e elas conviverem juntas neste cubículo de um metro quadrado, claustrofóbico que é o burro do coração. Fica impossível imaginar ar para quatro pulmões cheios de vida. Porém não sei como me portar. Quando estou contigo, és-me o conforto e a certeza de paz eterna, mas quando vacilo ao encontrar-me com ele, fico assim, por demais confusa. Pois bem sabes, um coração não pode viver dividido, ama-se mais um que o outro, mas ama-se os dois. No entanto eu não posso buscar teus olhos nos dele, nem aquele sorriso nos teus lábios. Não imagino ter as conversas longas sobre música e filosofia com ele, como também não me imagino a tê-lo infantil e palhaço como ele me é. Não, tu nunca poderias ter algo dele, nem ele de ti. Quando deito-me contigo fico a agoniar, porque não me entrego por inteira, sempre pego-me a recordar algo dele. E assim fico, essa minha mente indecisa, ama dois, mas nem sabe se é capaz de amar um por inteiro. Não sabe direito nem se é corajosa suficiente para se decidir ou amar-se a si própria.

retorno




Filme: Sommersby

Aos poucos tudo volta ao normal, e eu já posso reconhecer tua voz. Os mesmos agrados, o mesmo cantar. Devagar aproxima-se novamente, faze-me mais feliz, faz-me sorrir. Aos poucos tu vens, vens prometendo-me ficar, vens e eu acho que é definitivo. Isso tudo porque eu soube te aguardar, fui paciente com teu amor, com tua liberdade, com teu ir e vir. E agora se aproxima e aconchega-se no meu peito, naquele lugar só teu, que é teu e de mais ninguém. E vem, e diz que é para sempre.

terça-feira, 22 de abril de 2008

o apresso não tem preço



Filme: Bagdad Café
Música: Amigo é Pra Essas Coisas – Silvio Silva Jr. (Interpretação MPB-4)


Às vezes sinto que és-me mais que boas palavras, na verdade és-me quase tudo. É risada, choro, grito, alegria, tristeza, és-me tudo isso num único dia. Prometi a mim mesma que tentaria manter-me distante das suas influências, menti. Influencia-me em tudo. E esse tudo nem preciso dizer o que é. É na roupa, é no vinho, é no café, é na música. Queria mesmo depender menos de ti, mas és-me quase tudo. E eu nem me imagino dar um passo sem antes te perguntar se estou tomando o caminho certo, se o caminho que opto é o mais seguro, sempre opto pelos caminhos que sei que tu irás seguir comigo. Às vezes eu sinto que além de ser quase tudo para mim, és-me também aquilo que me falta. És-me o silêncio depois do ataque de riso, és-me a intimidade conquistada – diga-se de passagem, com muito esforço – és-me o suspiro depois de uma lágrima dolorida, és-me o gosto de saudade quando parto, e a deixo assim, tão desprotegida a me olhar. És-me quase tudo, e mais um pouco na verdade. És-me aquilo que eu não fui, és-me aquilo que eu gostaria de ser. És-me aquilo que sonhei, és-me aquilo que quase detestei. És-me a verdade, a mentira. A risada forçada, o choro contigo. És-me única e porque não dizer intensa e verdadeira amiga.

sábado, 19 de abril de 2008

então deita e aceita eu.



Filme: A Love Song for Bobby Long
Música: Beija Eu - Marisa Monte

Exijo que devolva tudo que me pertence. Quero de volta os discos de vinil, aqueles bons discos de Noel e Cartola. Quero que me entregue os velhos retratos, juntamente com as velhas cartas. Exijo que devolva-me aquele conjunto de pratos que mamãe nos deu. Os livros da estante da sala são meus, e eu os quero de volta. Lembra-te do lençol com os bordados em azul nas pontas? Então, quero-o novamente – aquilo foi presente de uma tia, coitada, já não vive mais – quero que tu examines as gavetas da cômoda e certifique-se de que não há mais nada meu ali.
Exijo que devolva tudo que me pertence. Quero de volta aquele sorriso malicioso que tu soltavas, e quero as canções que compunha pra mim. Quero que me entregue aquele corpo do qual nunca me saciei, ele me pertence e eu o exijo de volta. Exijo que devolva-me todos aqueles beijos molhados que dera nos meus lábios quentes, exijo mais outro banho demorado ao seu lado. Aqueles olhos grandes e a barba sem fazer são meus, então eu os quero de volta. Lembra-te daquela mão audaciosa que passeava pelo meu corpo? Então, quero-a novamente – era algo que me deixava extremamente à vontade, delícia, já me fazes falta – quero que tu te examines bem no espelho, e certifique-se de que está inteiro para voltar a viver comigo.

con te



Filme: The Godfather: Part III
Música: In Te – Chico Buarque e Ennio Morricone


Se me disseres que nada do que vivemos possui um significado, acreditarei. Se me disseres que na verdade foi tudo algo passageiro, sem valor ou empolgação alguma, entenderei.
Se me disseres que não queres mais me ver, que aquela música não te emociona mais, que meu cheiro, este não te prende mais, compreenderei.
Se me disseres que conheceste outra pessoa, que na verdade já amava outra antes mesmo de eu aparecer na sua vida, manterei o meu silêncio.
Veja bem, se me disseres que prefere que me afaste, que eu o mantenha na sua, intacto naquela vida perfeita, de amigos perfeitos, saídas perfeitas, sons e cores perfeitas, notarei que nunca fiz parte daquilo.
Se me contares um segredo, aquele segredo de que tudo que é bom dura pouco, eu o guardarei.
Prometo-lhe ser a mesma quando eu partir, prometo manter os mesmos olhos tristes que tu iluminou, prometo calar-me mais uma vez diante de uma saudade, prometo abaixar a cabeça e caminhar em silêncio, sem olhar para trás. Prometo-te tudo que quiseres. Mas se um dia tu me perguntares eu digo: sim, eu volto.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

paris, texas.


Filme: Paris, Texas.
Música: Paris, Texas – Gotan Project


Vou na constância de meus pensamentos em busca de algo que nem sei direito o que é. Não sei se bem se é o teu sorriso, ou teus olhos de cílios muito longos, não sei bem se é a lembrança do café ou o gosto do teu beijo. Parto em busca daquilo que tu deixaste cravado em meu peito, algo assim meio sem significado, mas que dói muito quando não estás por perto. Tento encontrar no chão triste e no peso de meus passos o caminho que me indicaste e que até hoje não fui capaz de traçar sozinho. Vou ao encontro de isso, ou aquilo outro que um dia prometemos a nós mesmos cumprir – um filho, uma casa, um jardim – Dessa vez tento ser o bom homem que não fui, e prometo dar-lhe o amor que te neguei.
Vejo bem ao fim, naquela linha do horizonte tua silhueta, bela e calma. Como o dia em que a deixei deitada sobre a cama.

terça-feira, 15 de abril de 2008



Filme: Persona

Mata-me, mas faça isso bem devagar, como tu sabes fazer muito bem. Mata-me lentamente dizendo aquelas coisas tolas ao meu ouvido, mata-me como se eu não te importasse, mata-me como se nada mais te interessasse, como se me cheiro não te embriagasse e minha voz, essa não te indicasse mais caminho algum. Mata-me dentro de ti, mata-me dentro do que um dia fomos nós, mata-me somente por tudo que deixamos de ser e pela covardia que me assaltou. Mata-me, por favor, mata-me para que eu nunca mais possa mirar teus olhos grandes, mata-me para que eu não tenha que cruzar-te por aí e dizer-te besteiras. Mata-me sim, mata-me para sempre, enterre-me bem fundo, e mantenha-me calada, inerte e fria no momento em que tirares minha vida.

meio



Filme: Chocolat
Musica: La Noyée – Yann Tiersen


Quando me pedem que fale, deixo no ar frases interrompidas. E ao entrar num banho, uso 2/4 do que usaria de xampu no meu cabelo. Ao vestir-me, suspeito que coloco menos roupa que o normal – me falta sempre um casaco, um bolero, um cachecol – Saio de casa, ao invés das duas voltas costumeiras da chave, me limito a uma. Meio tanque de gasolina no carro. Músicas ouvidas pela metade. Ao caminhar pela rua, paro naquela esquina do café, mas 50% de mim apenas está ali. Meia xícara de espresso, meio cookie branco, meio copo de água com gás.
Chego à biblioteca, um relatório de quatro páginas como me pediram, tem apenas duas. Dos seis livros de poemas de Neruda, Espanca e Moraes, apenas três se dissolvem em meias palavras. Tento prestar atenção na paisagem pela janela, mas só meia vontade faz-me mirá-la. Ainda assim, finjo que me interesso, um interesse meio fraco e sem cor.
Em casa, ancorada no sofá vejo somente até metade do filme, depois disso levada pela força abrupta do cansaço, me desfaço num monte inerte desolado e infeliz de saudades suas. Assim deixo que cheguem umas pitadas de sono, meio foscos, misturados a imagens que tenho de ti. Uma mão, metade do seu lábio, uma das tuas orelhas, um de teus olhos. Vejo bem teu corpo quente, que acarinho, ainda assim distante e nem por inteiro. Tu falas de quatro beijos vagarosos e profundos, lembro-me de oito. A verdade é que quando tu não estás bem por perto minha vida fica assim... pela metade.
*inspirado pelo texto de Sofia Vieira

sem mais pensar em não sorrir



Filme: A Máquina
Música: Vem - FelixBravo

Diz-me Marina, como faço para fugir da paixão? Conta-me que atitudes devo tomar, e fala-me como me comportar. Mostra-me um jeito diferente de ser, indique-me um amor que não me faça sofrer. Por favor, Marina, me ensine a sobreviver. Ensina-me a não chorar, me ensina a cantar, me ensina a sorrir, me ensina a voar. Conta-me Marina, porque aquele guri aproximou-se de mim? Diga a ele Marina que tava bem assim, que por mim deixava tudo como que está, fala a ele Marina que não quero cair, que não quero partir, que não quero chorar. Conta pra ele daquela vez que me machuquei, e que triste tu veio me salvar. Fala para ele tomar cuidado Marina, porque eu ainda posso amar.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

fala-me de amor



Filme: The Dreamers
Música: Joana Francesa – Chico Buarque

Ensina-me vai, mostra-me como faço para fazer amor contigo. Diga-me o que te ganha, me mostre teus fracos, faze-me tua, e só tua. Joga-me no teu sofá, e coloque tuas músicas, embriaga-me de vinho e depois me deixe sem sentidos e tremula de tanto prazer. Ensina-me como conquistá-lo, como tê-lo e amá-lo. Indique teus caminhos, faça eu me perder quando for ao te encontro, eu permito que me roube tudo, que me limpe a carteira, que pague as despesas. Ensina como faço para te ligar, para te achar, te cantar. Mostra como não te perder, não me desesperar. Diga como posso me aproximar, se queres lingerie preta ou vermelha, se teu vinho é branco ou tinto. Faça isso, faça tudo que quiseres mas não negue-me esta chance.

terça-feira, 8 de abril de 2008

perfume



Filme: Scent of a Woman
Música: Por Una Cabeza – Carlos Gardel


Confesse que já andaste por aí a procurar meu perfume, e pegou-se a abrir frascos e mais frascos de cremes hidrantes, que desesperado olhava para os lados meio sem jeito por ver os outros te observarem. Confessa que chegaste a perfumaria e descreveste um cheiro que atendente alguma conseguiu decifrar, que triste saiu, desolado pensando em como encontrar perfume igual por aí. Confessa que fez papel de tolo, que na busca incessante todos te acharam meio bobo, mas que mesmo assim tu não desististe. Explico-te porque não encontra-me em tantos frascos, é que toda vez que entro no banho, passo um óleo especial para o banho, e por diversas vezes o troco: amêndoas, pêssego, buriti, castanha... Quando saio do banho uso cremes diversos: morango, lavanda, macadâmia... E às vezes uso uma loção pós-banho. E quando faz sol, uso um pouco de protetor solar, e tudo isso misturou-se ao suor que escorria pelo pescoço, que derrapava nas minhas curvas e que o deixava tão extasiado. Então, este é o cheiro, o cheiro que sentiste quando puxou-me para ti, e que não encontrarás em frasco algum.
*baseado no texto de Sofia Vieira

segunda-feira, 7 de abril de 2008

inverno




Filme: Màlena
Música: Atrás da Porta – Chico Buarque


Invernou, e tu não estás. Encho-me agora de uma melancolia absurda, de uma tristeza pertinente ao momento. Prendo bem o cachecol sobre meu corpo, tentando agasalhar-te, e caminho assim. Mantenho a cabeça baixa, e o vento gélido seca meus lábios, e minha voz, essa está tão rouca quanto me conheceu. Chego à paragem do autocarro, e na agonia presente de meus dias olho ao meu redor para ter a certeza de que não estás por perto, e quando sento-me no banco do automóvel, ligo o som na maldita canção do Chico, visceral e dolorida como o aborto que tentei fazer de ti. Pois invernou, e tu não estás. E isto enche-me de uma dor pavorosa, que invade-me a mente e a alma. Tento concentrar-me no trânsito, tão impossível quanto esquecer-me de ti. A garoa fina cria sobre o pára-brisa desenhos da solidão, e posso ver-te partir pelo retrovisor. Assim continuo a dirigir-me para a cela da covardia, e mantenho-me convicta de que a falta que me fazes não é nada demais, bobeira, e quando amanhecer o dia lembrarei que invernou, e tu não estás.

domingo, 30 de março de 2008